Depois de uma campanha que se pode classificar como a mais polarizada desde a redemocratização, o presidente Lula foi reeleito, no último dia 25 . As comemorações festivas de um lado e a tristeza intensa do outro revelaram o nível de acirramento da disputa. Uma multidão, de um lado, pulando de alegria e de, outro, uma multidão bastante triste, indignada, preocupada, apreensiva com o futuro do país.
Virulência
Depois de uma campanha das mais vulgares e virulentas, vazia em conteúdo e debate, o eleitor viu-se compelido a optar por um dos dois candidatos no segundo turno muito mais por rejeição ao outro a um real apreço e admiração pelo candidato escolhido e suas propostas. Aliás, de propostas quase não se falou. O foco eram os ataques ao adversário. Quem seria o mais corrupto? Quem seria o mais perigoso? Enfim, o derradeiro destino de precisar optar pelo “menos pior” esteve presente na mente de muitos eleitores, talvez, da maioria.
“Campanha do medo”
A “campanha do medo” prevaleceu como nunca nestas eleições. De um lado, a campanha do petista dedicou-se, de forma intensiva e mordaz, a disseminação de fake news, as mais toscas e surreais, a exemplo de supostos cortes “cruéis”, ”desumanos” em programas sociais, do fim da Farmácia Popular e até do SUS (pasmem!), além da ausência de reajustes e aumento real no salário mínimo. A ideia central foi disseminar o medo de que o Brasil virasse uma Argentina, em referência ao plano econômico implementado pelo presidente Javier Milei. Como se a economia da Argentina já não estivesse “quebrada“, destruída, por uma sucessão de governos da esquerda peronista durante, pelo menos, uns vinte anos.
Outro ponto muito explorado foi o medo da perda da soberania do Brasil em relação ao governo Trump. Como se a China já não estivesse comprando e explorando tudo que é estratégico e que vê pela frente no Brasil…
Combate a ideologia de esquerda
Do lado da campanha de Flávio Bolsonaro, prevaleceu o antipetismo e um posicionamento contundente no combate a ideologia de esquerda. Não se resumindo, apenas, a rejeição a um partido, o PT. Mas com a principal bandeira do combate a ideologia de esquerda e a exaltação de valores da direita, a exemplo da liberdade de expressão, da defesa do livre mercado e da iniciativa privada, de valores da família tradicional, da defesa da vida do feto, no tocante ao aborto, entre outros. O medo de uma “venezuelização” do Brasil atrelado a continuidade do governo Lula em mais um mandato, também, esteve presente. O alinhamento político do presidente Lula, num passado recente, ao ditador de esquerda Nicolás Maduro, não foi esquecido pelos eleitores de direita, vale lembrar, gerando comparações de seu governo ao do ditador deposto na Venezuela pelo presidente Donald Trump.
“Exército do Janones”
Lamentavelmente, o medo do adversário no poder esteve presente nas duas campanhas. Porém, a “campanha do medo“ lançada pelo PT, principalmente, no segundo turno, falou mais alto. O “Exército do Janones” demonstrou que não estava disposto a perder a reeleição de jeito algum. Inclusive, o medo de uma suposta ditadura de direita com mais um “Bolsonaro golpista, fascista, miliciano” no poder foi incisivamente implantado não, apenas, em eleitores de esquerda como entre os chamados de centro, isentões, independentes, aqueles que decidem o voto de uma maneira mais desvinculada de simpatias ideológicas e que costumam adotar a posição de indecisos ao longo da campanha. É bem possível que o medo de uma suposta “ditadura bolsonarista” tenha sido decisivo para a reeleição do presidente Lula. Viu-se, nas redes sociais, uma proliferação de hashtags de militantes de esquerda “convidando” eleitores de direita não-bolsonaristas a votarem em Lula caso quisessem contar com eleições para presidente, em 2030. O argumento era de que Lula não contaria com um sucessor, uma liderança forte na esquerda, em 2030, abrindo espaço para um candidato de direita, não-bolsonarista, poder vencer a eleição, a exemplo de Tarcísio de Freitas. E que não haveria mais eleições presidenciais com Flávio na presidência da República e um Senado repleto de bolsonaristas. Não tenho dúvidas de que muitos eleitores de direita não-bolsonaristas caíram feito uns patinhos na estratégia maquiavélica de Janones, que está de parabéns. Dizem que ele teria conseguido, até, reverter votos que eram de Flávio, no primeiro turno, para Lula, no segundo turno… Devido ao medo do “fascismo“, inclusive.
Ditadura
Em resumo, a maior parte do eleitorado demonstrou nas urnas que tem mais medo de uma suposta ditadura bolsonarista de direita do que de uma suposta ditadura “bolivariana” de esquerda. Além de preferir não trocar o certo pelo duvidoso em relação a benefícios sociais e perdas de direitos adquiridos. Mesmo que estes supostamente garantidos benefícios possam não estar tão garantidos, assim. No dia seguinte a eleição, já ventilava-se na imprensa prováveis cortes em diversos benefícios. Ao que tudo indica, o Pix de R$ 5 mil prometido aos MEIs, durante o segundo turno, não deverá alcançar R$400,00. Os R$700,00 mensais do Pé-de-Meia parece que também não serão bem assim… Mas para sermos justos, daremos o benefício da dúvida… Convém, aguardarmos as primeiras medidas do governo, em 2027.
Déficit fiscal
A única certeza é a de que o governo necessita urgentemente realizar um ajuste fiscal nas contas públicas. A dívida pública é outro ponto que não traz nenhum otimismo: está em torno de R$11 trilhões e a juros altos, a maior taxa de juros do mundo. Nem a Rússia, em guerra há mais de quatro anos, conta com juros tão altos. Sobra pouco para bancar os benefícios sociais, a saúde e a educação, duas áreas, aliás, que acabaram de sofrer quase R$6 bilhões em cortes logo que o presidente foi reeleito.
Arrocho ou impeachment?
O arrocho no orçamento, nas contas públicas, deverá ser líquido e certo. A não ser que o presidente Lula queira insistir rumo ao suicídio político e abrir espaço para um pedido de impeachment… Com um Congresso Nacional renovado a partir de uma bancada de oposição maior, principalmente, no Senado, creio que o petista, uma exímia raposa política, não deverá vacilar. A grande probabilidade é a de que deverá ceder a pressão do mercado, do pragmatismo neo-liberal, e autorizar uma política de cortes nos gastos, que poderá ser bastante dura, austera, sob a batuta de quem entende do ramo: o provável futuro ministro da Fazenda, Geraldo Alckmin, ex-tucano que, em tempos passados, era tachado de “de direita” e “neo-liberal” pelo petismo.
“Memória curta”
Afinal, o eleitor médio, costuma-se dizer, tem memória curta e logo deverá esquecer do quê foi prometido em campanha. Assim como esqueceu que Alckmin já chamou o PT de “partido corrupto”. Assim como esqueceu da “picanha” que virou “abóbora”… Mas o importante é que a “democracia foi salva“ e os “direitos e benefícios sociais estão garantidos”, comemoram, agora, os eleitores do presidente. Só não sabemos se terão essas mesmas certezas daqui a quatro anos. E se ainda estarão comemorando o “tetra” de Lula.












