A campanha eleitoral neste ano começou chocha. A largada oficial foi no último dia 16 de agosto, mas numa eleição presidencial extremamente polarizada entre o presidente Lula e o senador Flávio Bolsonaro, o clima é de um pleito praticamente natimorto. No sentido de que o debate de ideias – se é que haverá algum debate de ideias – encontra-se engessado e estéril em razão de uma polarização ideológica onde só há espaço para a cegueira e o fanatismo, e as respectivas torcidas organizadas…
Ausências em debates
Quando esperava-se que poderia haver espaço para a razão, o embate de ideias e a apresentação e discussão de um plano de governo dos dois principais candidatos, as expectativas foram frustradas. Pois, a expectativa era a de que o primeiro debate entre os candidatos à presidência, na Band TV, fosse começar a “esquentar” a disputa, levando visibilidade a temas importantes para o país. Contudo, nem Lula, nem Flávio Bolsonaro, compareceram. Com isso, o candidato Romeu Zema, do NOVO, também, optou por não comparecer. Restando os candidatos Ronaldo Caiado (PSD), Augusto Cury (Avante) e Renan Santos (Missão) no debate.
Petista em fuga
O presidente Lula justificou a ausência por não concordar com a presença do candidato do partido Missão, Renan Santos, que não teria convite obrigatório, visto que seu partido não possui representação no Congresso Nacional. Mas, mesmo assim, a emissora o convidou. No mesmo horário, o petista preferiu dar uma entrevista à TV Record, onde deve ter se sentido “em casa“, sem as perguntas indigestas do candidato Renan Santos, que não costuma “deixar por menos“ em se tratando de ataques, críticas e até ofensas pessoais.
Ao que tudo indica, o presidente da República também não deverá comparecer aos próximos debates televisionados. Nem no da Globo, de acordo com informações preliminares divulgadas pelo próprio grupo de comunicação. Flávio Bolsonaro até queria, de início, ir ao debate da Band mesmo sem a presença de Lula, mas foi aconselhado a não ir para não ser o único a concentrar as pedradas que lhes seriam jogadas pelos adversários. Se no último debate, na Globo, Lula realmente não for, Flávio, também, não deverá comparecer.
Ausências sucessivas
No Paraná, essa “tendência” de não comparecimento a debates, adotada por candidatos relevantes, tem sido protagonizada pelo senador Sérgio Moro, candidato ao governo do estado pelo Partido Liberal (PL). Moro não foi ao debate da Band TV, nem ao debate da rádio TMC Paraná, em parceria com a Universidade Positivo, nem a uma sabatina da Band News. Com o anúncio de que não iria comparecer ao debate da TMC, o candidato governista Sandro Alex (PSD) também optou por não participar. Afinal, Moro seria o principal adversário do candidato do governador Ratinho Júnior, num contexto onde o embate de ideias e propostas se desenrolaria de forma mais relevante. A ausência do senador do PL simplesmente acabou com toda a pertinência do debate, uma vez que a colocação do contraditório teria um peso muito grande a partir da participação de ambos.
Soberba e covardia
É triste verificar que uma campanha eleitoral de extrema contundência como vem sendo essa de 2026, tanto a nível nacional como a nível estadual, venha sendo esvaziada pela postura dos candidatos que estão a frente nas pesquisas. Seria a soberba de quem sente que “já ganhou“? Ou a covardia de não saber lidar com o contraditório, o confronto de ideias, a apresentação de propostas, perguntas indigestas, respostas e explicações “não estratégicas” sobre o passado? Enfim, medo da exposição e da consequente perda de votos.
“Baixarias”
Alguns eleitores defendem seus candidatos “de estimação” que não comparecem a debates alegando que tais encontros em nada acrescentam, só resultando em “baixarias“ e “ataques pessoais”. Ora, mas “baixarias” e “ataques pessoais” dizem muito sobre quem os protagoniza, não? Seria mais uma oportunidade ao eleitorado de conhecer o verdadeiro temperamento, caráter e personalidade do candidato num cenário não-controlado, onde alguma espontaneidade pode ser vislumbrada, ao menos. Algo muito diferente do cenário controlado e editável das redes sociais e da propaganda eleitoral, gratuita ou não.
Perda para a democracia
A ausência de candidatos importantes em debates representa uma grande perda para a democracia, para a informação, para o debate de ideias, a apresentação de propostas e o confronto direto entre os adversários. O candidato que não demonstra coragem para esse tipo de embate não é digno de dirigir uma nação ou um estado.












