Jornalista responsável dos jornais do Grupo Paraná Comunicação (A Gazeta Cidade de Pinhais, A Gazeta Região Metropolitana, Agenda Local e Jardim das Américas Notícias)

Lula diz que nunca foi de esquerda revelando que tem um discurso para cada plateia

Declaração repercute entre aliados e opositores no Brasil

Em encontro na cúpula do G7 – grupo das sete nações mais ricas do mundo – na França, ”vazou“ uma conversa informal, em reservado, entre o presidente Lula e interlocutores, como o chanceler alemão Friedrich Merz e a diretora-geral do FMI, Kristalina Georgieva, em que o petista declarou que nunca foi esquerdista. A declaração causou surpresa e risadas jocosas à boa parte dos brasileiros, em especial, a bolsonaristas e direitistas.

“Caminho do meio“

Lula completou que sempre foi um sindicalista, porém, nunca considerou-se de esquerda. Ainda acrescentou que, em sua avaliação, o mundo tem demonstrado que não é de esquerda e que o “caminho do meio” (talvez, inspirando-se no Budismo), seria a tendência, lembrando que o Partido Republicano permaneceu mais tempo no poder nos EUA que os Democratas. E que, na França, os socialistas, também, não ficaram muito tempo no poder, ao longo da História recente. Tais declarações foram uma resposta ao questionamento da diretora-geral do FMI, que lembrou que a entidade internacional temia a ascensão de Lula ao poder a época de sua primeira eleição justamente por entendê-lo como um socialista, trazendo o risco de um governo que fizesse oposição a interesses do mercado internacional e às metas econômicas do Fundo.

Cinismo e mentiras

As declarações de Lula foram interpretadas pela direita e extrema-direita no Brasil como mentirosas e cínicas. Afinal, o governo 3 de Lula, principalmente, tem revelado grande apreço ao aumento da carga tributária, tanto ao empresariado como ao consumidor e ao trabalhador. Enfim, uma política tipicamente de esquerda pautada em arrecadar, cada vez mais, e ampliar a influência do Estado sobre a vida dos cidadãos e das empresas. O foco no reforço e ampliação de programas assistenciais de transferência de renda é outro aspecto relevante que coloca o governo Lula 3, em especial, mais a esquerda dentro do espectro ideológico. Bem como o discurso em favor das minorias, a partir da defesas de cotas raciais e outras. Aliás, este terceiro mandato do governo Lula apresenta um viés mais à esquerda que os dois anteriores, é importante ressaltar.

“Média”

O ponto fundamental desta conversa “vazada” do petista é o contexto. O presidente estava conversando com a diretora do FMI, uma entidade pró-mercado, liberal economicamente, e com líderes, como o chanceler alemão, que é de centro-direita. Foi evidente que estava fazendo “média” diante de seus interlocutores.

“Pragmatismo“

Além disso, Lula, acima de tudo, é um pragmático, como bem colocou o ex-ministro Fernando Haddad. Na prática, o presidente sempre soube que é preciso fazer concessões a certos interesses do mercado e a dialogar e negociar com representantes de diversas correntes políticas e interesses, muitas vezes, divergentes, entre representantes da sociedade civil.

Perpetuação no poder

A governabilidade e a perpetuação no poder é o que sempre foram prioridade ao petista. Se for preciso abrir mão de pautas caras à esquerda para garantir a governabilidade e sucessivas reeleições, está valendo para o ex-sindicalista, que deve ter aprendido muito sobre negociação e a busca de um consenso razoável entre as partes em sua trajetória no sindicalismo.

Centro-esquerda

Política é a arte do possível, muitas vezes, longe do ideal almejado. Os governos Lula, desde o primeiro mandato, destacaram-se por um posicionamento de centro-esquerda, mesmo sendo do desagrado da militância-raiz que, não raro, costuma pender mais ao extremo da esquerda no espectro ideológico.

Portanto, não se deve levar ao pé da letra esta declaração. E talvez, nem outras declarações. Em outras ocasiões, o petista já declarou-se de esquerda. Em 2024, na Bahia, diante da militância, disse que não haveria motivos para militantes terem vergonha de serem de esquerda, afinal, Jesus Cristo, em seu ponto de vista, defendia causas semelhantes, a exemplo de dar alimento aos pobres e ficar ao lado dos “excluídos” da sociedade.

“Sabor esquerda“

Em mandato passado, afirmou que era de esquerda, mas seu governo, não. Ou seja: ”governo sabor esquerda“. Em resumo: Lula tem um discurso para cada plateia, para cada interlocutor, para cada ocasião. Creio que classificá-lo de “pragmático” seria um eufemismo. O petista é, em essência, um camaleão, que se transforma e adapta-se ao meio, ao sabor das circunstâncias e conveniências. Não lhe falta inteligência emocional e interpessoal. Até quem o detesta deveria ser realista e reconhecer qualidades nele. Um político nato, com grande capacidade de comunicação e de adaptação.

Histórico

E, assim como para qualquer pessoa, sendo da política ou não, vale um velho conselho ao buscarmos conhecer verdadeiramente alguém: ”Não preste atenção no que as pessoas falam. Preste atenção ao que elas fazem e deixam de fazer. Afinal, as pessoas são o que fazem, não o que falam. Pois, falar, até papagaio fala”. Principalmente, em ano eleitoral, em que uma declaração como essa costuma gerar um impacto maior, este sábio conselho é fundamental.

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