Quando a gente pensa que já viu de tudo, especialmente, após o advento da internet e das redes sociais, no sábado (13/06), essa sensação foi superada por um acontecimento que chegou ao auge do absurdo, ao auge do grotesco. Ao ponto de muitos usuários das redes sociais duvidarem tratar-se de um vídeo real, por gerar a impressão de “pegadinha”, de fake news”, de uma criação de Inteligência Artificial (IA), tamanho o absurdo inimaginável retratado nas imagens. Refiro-me ao vídeo que mostra a tragédia que vitimou a jovem Maria Eduarda Rodrigues de Freitas, na Ponte do Esqueleto, zona rural do município de Limeira, em São Paulo.
“Puro suco de Brasil“
Em se tratando de Brasil, apesar do choque inicial e de toda comoção popular resultantes, não é de se estranhar o fato desta tragédia com toques de surrealismo ter acontecido em nosso país. Pois, ela é um retrato fiel do país. Como se costuma dizer: ”é puro suco de Brasil“. Vejamos… A começar pela presença de uma obra inacabada, abandonada, por no mínimo, uns trinta anos. Sem que o poder público tomasse alguma providência sobre o que fazer com o “esqueleto” de uma obra ferroviária abandonada.
Irresponsabilidade
Sendo a ponte pertencente a União, a Prefeitura de Limeira prontamente tentou jogar toda a responsabilidade para o governo federal. Porém, poucos anos atrás, após alguns acidentes na ponte, o governo federal havia pedido o bloqueio da estrutura desativada. Mas empresários locais e representantes dos esportes radicais foram a Câmara do município protestar, fazendo um forte lobby para que a Prefeitura não interditasse a ponte. O motivo? Alegaram que a ponte contribuía para o fomento ao Turismo e à atividade econômica na região, especialmente, pela prática de esportes radicais, a exemplo do rope jump. Fizeram o maior barulho para não fecharem a ponte e a Câmara de Vereadores cedeu à pressão popular.
Lobby e populismo
Em resumo: políticos covardes e irresponsáveis que, para não perderem apoio popular, atenderam aos interesses econômicos do lobby e à pressão do povo. A voz do povo seria “a voz de Deus”? Nem sempre. Cabe ao político e gestores públicos atenderem ao interesse público e ao bem-estar da população mesmo que decisões e ações venham a contrariar o clamor popular. Não houve no município coragem, ética e moralidade para tomar decisões impopulares, mas que se revelariam melhores ao povo. Da mesma forma que um pai nega um prazer ou facilidade momentâneos ao filho explicando que “é para o seu bem”, políticos éticos e responsáveis devem fazer o mesmo.
Ausência de fiscalização
O pior de tudo foi a ausência de fiscalização do poder público municipal. Já que a ponte continuaria aberta para “fomento ao Turismo”, sequer, passaram a fiscalizar a atividade das empresas promotoras do esporte radical no local. A empresa responsável pela morte de Maria Eduarda simplesmente não contava nem com registro no CNPJ. Uma bagunça geral instalada com a conivência e leniência do poder público…
Ganância
Também, é revoltante verificar a que ponto chega uma “empresa” em busca somente da ganância pelo lucro fácil e rápido. No dia da morte de Maria Eduarda, a fila era de dezenas de pessoas para saltar de rope jump. Houve atrasos nos saltos e certamente os instrutores deviam estar com pressa e cansados pelo excesso de público. A falta de profissionalismo em diversas etapas relacionadas a protocolos de segurança foi flagrante. A falta de responsabilidade, de respeito e zelo a cliente Maria Eduarda, extrapolou o inimaginável.
Foco em conteúdo digital
Comenta-se, nas redes sociais, que a tal “empresa”, que contava com dezenas de milhares de seguidores no Instagram, demonstrava um foco excessivo em produzir vídeos dos saltos para viralizarem nas redes sociais. Tem se tornado evidente que o detalhe mais importante para a empresa conhecida como “Entre Cordas” era produzir conteúdo digital para viralizar nas redes sociais, gerando um alto engajamento. E atraindo, assim, o maior número de clientes possível. A ganância falou mais alto do que tudo.
Ingenuidade
Do ponto de vista do consumidor, também, houve bastante ingenuidade, em confiar numa empresa que, sequer, tem registro no CNPJ. Baseando-se unicamente pela popularidade nas redes sociais e qualidade dos vídeos bacanas e emocionantes. O brasileiro ainda é um povo bastante ingênuo, em certos aspectos, tendendo a acreditar apenas no que vê e ouve superficialmente. Clientes que já saltaram com a empresa disseram que nem desconfiavam que não havia registro no CNPJ. Para as novas gerações, o equívoco em avaliar a qualidade de uma empresa, serviço ou competência e ética de uma pessoa pela popularidade nas redes sociais é tentador. Mas já há diversos outros exemplos de enganos terríveis a respeito da competência e ética de profissionais populares na internet… Profissionais de estética sem o mínimo preparo já fizeram grandes estragos a clientes a partir de casos alvo de reportagens.
“Piadinhas de IML”
Para pintar ainda mais de negro toda essa tragédia, vimos comentários asquerosos de usuários nas redes sociais com “piadinhas de IML”. Gostaria de pensar que não se trata de pessoas reais, mas de “bots”… Porém, mesmo considerando a hipótese de se tratarem de “bots”, haveria pessoas por detrás dessa iniciativa, o que não ameniza muito a realidade. Disseram que a pandemia traria uma crise de saúde mental terrível à população.
Crise moral
Eu diria que isso vai além. É uma crise moral, sem precedentes. Tantos brasileiros têm se tornado cínicos diante de tanta baderna, corrupção, impunidade, tragédias e desgraças em nosso país que já perderam a capacidade de empatia e indignação. Fazem piada de toda e qualquer desgraça. Esse comportamento aliado ao discurso “Red Pill” muito presente nas plataformas digitais resulta nesse auge, também, do grotesco e do absurdo revelado nos comentários repugnantes, criminosos. Uma sociedade doente reforçada pelo mundo digital e com o beneplácito da impunidade verificada no mundo presencial.







