Os dados divulgados recentemente sobre a inadimplência das famílias no país são alarmantes. E acendem o alerta sobre inevitáveis impactos na economia e, por consequência, nas eleições presidenciais. O Serasa, durante o evento ‘Dez anos do Mapa da Inadimplência‘, apontou que 81,7 milhões de brasileiros estavam endividados até março de 2026, um crescimento de 38,1% em dez anos. Em 2016, eram 59 milhões de brasileiros. Em percentuais, estes números representam 49,9% da população economicamente ativa, enquanto há dez anos, eram 39,2%.
Retração no comércio e serviços
Os números são extremamente preocupantes. Principalmente, quando se considera o impacto que geram no comércio e na desaceleração da economia. População mais endividada significa menos dinheiro para o consumo, afetando duramente o setor de comércio e serviços. Além disso, um cenário tão adverso às famílias, a poucos meses das eleições presidenciais, deverá impactar, em muito, na decisão de voto. Quando as famílias encontram-se endividadas, sem expectativas de quitação ou abatimento nas dívidas a curto e médio prazos, naturalmente, tendem a avaliar que não houve uma melhoria significativa na qualidade de vida durante um determinado governo.
Juros e pressão inflacionária
E não é para menos. Afinal, um quadro persistente de juros altos, como temos atravessado nos últimos anos, somado a pressão inflacionária incessante, têm levado milhões de famílias a recorrerem a cartões de crédito, cheque especial e a empréstimos para pagar as contas do mês. Sejam essas contas, a parcela do financiamento da casa própria, taxas de condomínio, e, até, gastos com alimentação e taxas de energia elétrica e água.
Empréstimos e bets
O acesso facilitado a empréstimos, inclusive, o consignado, tem contribuído para a inadimplência, também. Para atrapalhar mais ainda a vida do cidadão endividado ou que já vive na corda bamba das finanças pessoais, veio a febre das bets. Com ela, o vício, a compulsão, em jogos online. Uma arapuca que, de fé e esperança momentânea e “sair do buraco“ e ”melhorar de vida” tem se transformado em pesadelo a tantas famílias.
“Desenrola 2.0”
O presidente Lula tem expressado preocupação com o aumento da inadimplência e já convocou o Ministério da Fazenda para lançamento de um novo programa de renegociação das dívidas das pessoas físicas, nos moldes do “Desenrola”. Seria um “Desenrola 2.0”. Em julho de 2023, quando o “Desenrola” foi criado, havia 72,9 milhões de brasileiros inadimplentes. Desde quando encerrou, em março de 2024, o número de endividados no país cresceu: já são 9 milhões de pessoas a mais. Na época, o governo disse que mais de 15 milhões de brasileiros foram contemplados com o programa. O governo, ainda, avalia liberar recursos do FGTS para abatimento das dívidas.
Compras online
Além da pressão inflacionária, dos baixos salários ofertados no país, do triste fenômeno das bets, do crédito facilitado, a exemplo do empréstimo consignado, é importante levar em conta outros fatores que devem estar contribuindo para gerar tanto endividamento às famílias. Com a popularização dos cartões de crédito e do uso de telefones celulares, naturalmente, as tentações para as compras impulsivas tornarem-se grandes. Basta acessar o celular e o usuário passa a ser bombardeado o dia inteiro com publicidade e links para compras. A facilidade e rapidez de, num breve clique, poder comprar uma infinidade de bens de consumo, úteis e realmente necessários (ou não), é tentadora. Para o consumidor, muitas vezes, parecem compras inofensivas, incapazes de comprometer o orçamento. Porém, quando realizadas de forma repetida, no somatório ao final do mês, já fizeram um grande estrago nas finanças.
Educação financeira
Eis, a importância de se promover o acesso a educação financeira a todos os cidadãos. Aliás, educação financeira é algo que deveria estar sendo ensinado desde a infância. Crianças e adolescentes deveriam ter acesso a educação financeira nas escolas como parte do currículo permanente. É fundamental que o poder público invista na disciplina de Educação Financeira desde a Educação Básica. Com Educação Financeira o indivíduo aprende, desde cedo, a controlar gastos, a economizar, a investir, a fazer escolhas inteligentes nas compras, a pesquisar preços, a evitar as compras por impulso, a abrir mão do supérfluo em tempos de escassez, a evitar ciladas em empréstimos e financiamentos, enfim, é educação para a vida, para, além da sobrevivência financeira, educação para o crescimento pessoal e material das famílias.






