Em 23 de abril, comemora-se o Dia Mundial do Livro, data criada pela UNESCO, em 1995, para incentivar a leitura, estimular a produção editorial e proteger a propriedade intelectual.
Mais da metade da população
Ao falar do hábito de leitura de livros no Brasil, o panorama é desanimador. O último levantamento sobre o tema, de 2024, aponta uma queda de 7 milhões no número de leitores, em comparação a pesquisa anterior, realizada em 2019. Trata-se da sexta edição do “Retratos da Leitura no Brasil”, realizada pelo Instituto Pró-Livro. A pesquisa aponta que 53% dos entrevistados não leram, nem mesmo, parte de um livro, nos três meses anteriores a pesquisa, realizada entre o final de abril e de maio de 2024. Foi a primeira vez que, na série histórica, iniciada em 2007, houve uma maioria de brasileiros que não leram nada, no tocante a livros. E este dado abrange, até, mesmo, livros didáticos, a Bíblia ou outros livros religiosos. O percentual de leitores que leram um livro inteiro foi de, apenas, 27%.
Esta é a pesquisa mais abrangente na tarefa de medir o comportamento do leitor brasileiro e ouviu 5.504 entrevistados durante visitas domiciliares em 208 municípios, entre 30 de abril e 31 de maio de 2024. E apontou que, pela primeira vez, no Brasil, há mais não-leitores do que leitores de livros.
“Falta de tempo“
Entre os motivos, foram relatados “falta de tempo”, ”de interesse” ou “paciência” para ler livros. 36% relataram ter alguma dificuldade para leitura como, dificuldade de concentração ou de compreensão. Entre os que disseram não ter dificuldade, foram 38%. Em 2007, eram 48% dos entrevistados a relatar não ter dificuldade para ler.
A justificativa da “falta de tempo” é interessante avaliar, principalmente, quando a confrontamos com o dado de que 81% dos entrevistados disseram que gastam o tempo livre na internet. Em 2015%, eram “apenas” 50% os que gastavam o tempo livre na internet.
Avanço das plataformas digitais
A queda no número de leitores no país e o aumento do desinteresse pela leitura de livros, essencialmente, é reflexo, também, do avanço das plataformas digitais como, as redes sociais, que apresentaram um expressivo aumento da participação nos hábitos do cotidiano dos brasileiros.
Vício em redes sociais
Redes sociais costumam gerar comportamentos viciantes, pela rápida liberação de dopamina no cérebro, neurotransmissor que produz sensação de satisfação. É um desafio para a mente humana abrir mão da satisfação imediata da dopamina “barata” trazida pelas redes sociais ou plataformas de streaming como Netflix, Prime e outras, em troca da leitura de um livro. A leitura de livros, digitais ou impressos, demanda um nível de foco e concentração muito maior, além de maior capacidade de compreensão de linguagem.
Analfabetismo funcional
Em relação a capacidade de compreensão, fazem parte deste cenário preocupante os elevados índices de analfabetismo funcional do brasileiro. O último levantamento, também, de 2024, apontou que, três em cada dez brasileiros são analfabetos funcionais, em algum grau, ou seja, embora alfabetizados, não apresentam níveis de compreensão de leitura ou interpretação de dados numéricos além de palavras isoladas, frases curtas ou da identificação de números familiares como, contatos telefônicos, preços e endereços. O levantamento realizado foi do Inaf – Indicador de Analfabetismo Funcional 2024.
Sem avanços
O percentual de 29% de analfabetos funcionais é o mesmo patamar de 2018, ano da edição anterior do Inef. Enfim, não houve avanços entre 2018 e 2024 na erradicação do analfabetismo funcional quando se considera a parcela da população de maior faixa etária, em especial. Pois, foi na faixa etária entre 40 a 64 anos que se verificou o maior percentual, chegando a atingir 51% de analfabetismo funcional entre pessoas a partir de 50 anos.
Proficiência em alfabetização
Sem dúvidas, o nível de proficiência em alfabetização – quando há capacidade de compreensão de frases longas e complexas e de ideias elaboradas, além de abstração do pensamento – ainda pertence a uma minoria de brasileiros, pois, os indicadores são graduais, desde níveis elementares, passando pelo intermediário até a proficiência em leitura de dados, matemáticos ou numéricos. Além de melhorias na qualidade de ensino da Língua Portuguesa e Matemática, é fundamental que haja, paralelamente, o incentivo a leitura na escola, a exemplo de eventos e atividades que envolvam a leitura de livros.
Incentivo a leitura
Desenvolver o hábito da leitura de livros, de ficção, não- ficção, didáticos, religiosos, históricos, biografias, não importa o gênero, é crucial para o desenvolvimento do pensamento crítico, capacidade de cognição, de síntese, de argumentação e de raciocínio abstrato, além da imaginação e concentração.
Desenvolvimento da cidadania
Uma nação de iletrados encontra grandes obstáculos em alcançar níveis de desenvolvimento humano, de cidadania e de civilidade em patamares superiores. Pensamento crítico, desenvolvimento cognitivo e raciocínio abstrato importam muito, fazem toda a diferença, refletindo-se em escolhas político-ideológicas, em capacidade de discernimento entre o que é uma “fake news” ou não, entre o que se trata de desinformação e manipulação na mídia, inclusive, as mídias sociais. Reflete-se em como pensa, sente e age um cidadão, um eleitor, um profissional. Não há nação plenamente desenvolvida quando seu povo não conta com desenvolvimento cultural e cognitivo a níveis, pelo menos, satisfatórios. Mais e melhor educação, mais leitura, mais reflexão, mais pensamento crítico, representam a saída para grande parte dos desafios brasileiros.







