Jornalista responsável dos jornais do Grupo Paraná Comunicação (A Gazeta Cidade de Pinhais, A Gazeta Região Metropolitana, Agenda Local e Jardim das Américas Notícias)

Melhor presente é a promoção de uma infância digna e feliz

O Dia das Crianças (12 de outubro) deve ser uma data de reflexão sobre os direitos e o bem-estar integral das crianças, indo além do consumismo, que ofuscou seu sentido original

No Brasil, o Dia das Crianças é comemorado em 12 de outubro. Mais do que um dia para celebrar com presentes, brincadeiras e festas, é uma data para reflexão sobre os direitos dos pequenos, bem como uma oportunidade para a promoção de ações, projetos e políticas públicas permanentes voltadas às crianças. A origem da data no país remonta a 1923, quando houve a escolha do dia 12 de outubro durante um Congresso sobre os direitos das crianças, no Rio de Janeiro, então, capital do país. No ano seguinte, o presidente da República, Arthur Bernardes da Silva, sancionou a data comemorativa, fruto de um projeto de lei apresentado pelo médico e deputado federal fluminense Galdino do Valle Filho.

 

Data impulsionada pela publicidade

Mas o Dia das Crianças somente popularizou-se graças à iniciativa privada e publicitária. Em 1955, a marca de brinquedos Estrela lançou a Semana do Bebê Robusto para promover a venda de um boneco de plástico com a face bem rechonchuda. Já a Johnson & Johnson criou um concurso de beleza infantil no qual pais de crianças de seis meses a dois anos podiam enviar fotos de seus bebês para concorrerem ao título de “Bebê Johnson”.

 

Sentido original perdido

Sendo assim, a data popularizou-se muito incentivada pelo comércio. A venda de brinquedos costuma ser aquecida pelo Dia das Crianças. No entanto, seu intuito original, no Congresso Nacional, perdeu-se, deixando-se a defesa dos direitos das crianças ofuscada, lamentavelmente.

 

Direitos das crianças

Quando pensamos em direitos e garantias das crianças, é preciso pensar em políticas públicas e iniciativas das entidades da sociedade civil, também, além de outros setores como, profissionais da saúde, do Direito, da educação. Toda criança tem o direito de ter assegurados seu bem-estar físico, mental, social e familiar de modo que seu desenvolvimento pleno e integral esteja garantido. Cuidar e educar uma criança vai muito além de garantir uma boa alimentação e moradia, boa educação e serviços de saúde satisfatórios. Passa pelo amor, carinho e segurança física e emocional oferecidos, principalmente, pelos pais e cuidadores.

 

Desafios complexos

Um desafio bastante complexo, uma vez que, não raro, pais e responsáveis pela criança não apresentam condições materiais, familiares, sociais, emocionais ou, até, morais, em atender a todas as demandas para que um ser ainda em desenvolvimento e totalmente dependente de adultos possa desenvolver-se plenamente, de modo saudável, seguro e feliz.

 

Novos contextos na era digital

E quando se trata da atualidade, os desafios aumentam. A sociedade contemporânea tem apresentado rápidas e intensas mudanças, a exemplo do aumento da violência urbana e do tráfico de drogas e humano, e de contextos familiares, escolares e sociais mais diversificados e complexos, além dos novos problemas surgidos a partir da era digital. A digitalização da sociedade, a partir da ampliação do acesso a internet, oferece um capítulo imenso de desafios e novas ações e debates.

 

Exposição precoce a telas

Crianças contam com um acesso cada vez maior a internet, às redes sociais, em especial. Muitas estão expostas a novos cenários e seus consequentes riscos de forma sem o controle de seus cuidadores. De acordo com dados do Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade e Informação (Cetic.br), publicados em fevereiro de 2025, houve um crescimento expressivo no uso da internet e na posse de telefones celulares entre bebês e crianças pequenas. Em 2015, apenas 9% das crianças de 0 a 2 anos tinham acesso. Em 2024, este percentual saltou para 44%. Entre crianças de 3 a 5 anos e as de 6 a 8 anos, de 26%e 41%, respectivamente, saltou-se para 71% e 82%, respectivamente. A posse de telefones celulares, também, cresceu. Em 2015, eram 3% dos bebês até dois anos, subindo para 5% em 2024. De 3 a 5 anos, a posse passou de 6% para 20%, no mesmo período. De 6 a 8 anos, o percentual dobrou: de 18% para 36%. São dados bastante preocupantes. Pois, de acordo com a Sociedade Brasileira de Pediatria, bebês até dois anos não devem ser expostos a telas. De dois a cinco anos, somente até uma hora por dia e sob supervisão de um responsável.

 

Prejuízos ao desenvolvimento infantil

Estudos têm crescido, nos últimos anos, com o objetivo de verificar até que ponto o uso de telas para acesso a internet pode ser prejudicial ao desenvolvimento infantil. Já é de conhecimento científico que o uso de telas afeta o desenvolvimento cognitivo, social e emocional dos pequenos. Quanto mais nova a criança, maior o prejuízo. Problemas de saúde como miopia, obesidade, distúrbios do sono, ansiedade, depressão e baixa autoestima, também, estão relacionados aos hábitos digitais das crianças desta era digital em que vivemos. Atrasos cognitivos e na fala e dificuldades de autorregulação emocional são outras consequências.

 

Cyberbullying e pedofilia

Há, ainda, os riscos de exposição ao cyberbullying, e a conteúdos inadequados para a idade, a exemplo de pornografia, e ainda a conteúdos criminosos como, pedofilia e exploração e abuso sexual, uso de entorpecentes e a violência em todas as suas modalidades, além dos crimes, em geral. Os chamados predadores online encontram-se à caça de crianças e adolescentes na internet e todo cuidado é pouco. Pais e responsáveis devem estar atentos e cientes dos conteúdos que as crianças têm acessado na internet.

 

Adultização

Outro aspecto é o contato das crianças com conteúdos do cotidiano dito normal dos adultos, mas que podem transformar as crianças em “adultos-mirins”, revelando um processo de adultização e precocidade muito prejudicial. As redes sociais, inclusive, têm popularizado o uso da imagem de crianças por parte dos próprios pais, em produções de conteúdos aparentemente inocentes. Os feeds e stories das redes sociais encontram-se repletos de perfis criados pelos pais para exporem as “gracinhas” de seus filhos com o objetivo de monetização. Criança não deveria ser objeto de produção de conteúdo para fins lucrativos.

 

Exploração comercial da imagem

Crianças “famosinhas” nas redes sociais costumam cativar o público formado por seguidores adultos devido ao carisma, inteligência, graciosidade ou simples momentos de fofura. Mas, algumas tornam-se, até, ”arrimo de família”, tendo suas imagens exploradas com o intuito de ampliar as visualizações e likes e, com isso, obter-se a almejada monetização paga pela plataforma. Quem garante que essas crianças, no futuro, irão gostar de saber que tiveram a própria imagem exposta dessa forma na internet? São crianças filmadas enquanto comem, dormem, falam gracinhas, brincam, passeiam, fazem seus deveres escolares, enfim, são momentos íntimos do cotidiano que se tornam públicos. Já há registros de filhos que, ao crescerem, processaram os pais por esse tipo de superexposição da imagem e privacidade na internet.

 

Melhor presente

Nestes novos tempos, talvez, educar os filhos e bem cuidar de uma criança esteja mais complexo e desafiador. Que o Dia das Crianças não seja uma data, apenas, para presentes e brincadeiras, mas para verdadeiro comprometimento em assegurar o bem-estar e desenvolvimento integral das nossas crianças. Serão as crianças os adultos do futuro. E somente adultos com boa formação e experiências felizes e saudáveis na infância podem construir uma sociedade melhor. Promover uma infância digna é o melhor presente.

Tags

publicidade

Compartilhe:

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

publicidade
publicidade

Opinião

plugins premium WordPress