Não é ilegal, mas é imoral. O vazamento de mensagens e de um áudio com conversas em que o pré-candidato à Presidência da República, Flávio Bolsonaro, pede dinheiro ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro para a produção do filme “Dark Horse”, sobre Jair Bolsonaro, repercutiu fortemente entre aliados e interlocutores mais próximos do senador. Não é tanto uma questão de valores financeiros e de se o dinheiro foi ou não foi repassado na íntegra. Mas o mero fato dele ter pedido dinheiro a Vorcaro, num momento em que já eram de conhecimento público as fraudes bilionárias feitas pelo banco. As mensagens são de setembro do ano passado e o áudio, de novembro, mais precisamente, do dia 16, um dia antes de Vorcaro ser preso.
“Dinheiro privado”
Após a veiculação das mensagens e do áudio vazados pelo portal Intercept Brasil, Flávio Bolsonaro admitiu que pediu dinheiro para completar a produção do filme. O banco já teria repassado R$61 milhões entre fevereiro e maio de 2025. O montante teria sido depositado num fundo, nos Estados Unidos, de um amigo de Eduardo Bolsonaro. Porém, o senador disse que não vê problema no pedido, pois tratava-se de dinheiro privado. Ora, não é bem assim. O banco Master mantinha vários negócios com o Estado, em diferentes esferas. E, mesmo que não o fosse, é, no mínimo, imoral pedir dinheiro a uma instituição fraudulenta, envolvida num escândalo de corrupção. Se não o maior da República, um dos maiores, abrangendo R$12 bilhões.
Desgaste
O desgaste na imagem de Flávio Bolsonaro é ainda maior quando atentamos para o fato de que, poucas horas antes do vazamento do Intercept Brasil, na quarta-feira (13/05), mesmo, pela manhã, o senador havia negado qualquer envolvimento com o banco Master. ”É mentira. De onde você tirou isso? É mentira, pelo amor de Deus”, respondeu à imprensa.
Eleitorado em potencial
O presidenciável, aliás, vinha tentando colar o caso Master a imagem do presidente Lula, diligentemente. Em evento de pré-campanha, em Santa Catarina, no último final de semana, apareceu com uma camiseta com a inscrição: ”O pix é do Bolsonaro. O Master é do Lula”. Pois, bem…Poucos dias depois, o “feitiço virou contra o feiticeiro”… E Flávio terá de fazer malabarismos para se explicar a seu eleitorado em potencial: aqueles da direita mais independente, que ainda detêm algum senso crítico e noção da realidade. Já, quanto aos bolsonaristas-raiz, não há com o quê se preocupar. O voto já está garantido, a julgar pelas árduas defesas nas redes sociais… O problema é que nenhum candidato da direita consegue eleger-se somente com os votos dos bolsonaristas-raiz.
Surpresa
Comenta-se que a notícia do Intercept Brasil pegou a todos de surpresa entre aliados e interlocutores mais próximos de Flávio Bolsonaro. Que o pré-candidato realmente não teria contado a ninguém que pediu dinheiro a Daniel Vorcaro e que seria tão próximo dele ao ponto de chamá-lo de “irmão” e de afirmar que estaria ao lado dele sempre, como revelam as mensagens. É bem provável que o filho do ex-presidente não tenha contado que seu telhado era, assim, de vidro, ou melhor, de cristal. Do contrário, sua pré-candidatura não teria obtido apoio o suficiente. Uma alternativa teria sido articulada, a exemplo de colocar Tarcísio de Freitas em campo. Certamente, o egocentrismo dos Bolsonaro não teria permitido passarem a bola para o governador de São Paulo, ofuscando o protagonismo da família. Daí, a necessidade de esconder tamanha fragilidade. Agora, para a direita bolsonarista, resta torcer que não venham mais denúncias contra Flávio, principalmente, envolvendo o banco Master. E tentar estancar a sangria.
“Tapa na cara”
Quem deve ter gostado do mais recente escândalo de pré-campanha foi o presidenciável Romeu Zema (NOVO-MG), que não perdeu a oportunidade de provocar e atacar o senador. “Foi um tapa na cara dos brasileiros. Não adianta criticar Lula e fazer a mesma coisa. Ouvir você cobrando dinheiro do Vorcaro é imperdoável. Tem de ter credibilidade para mudar o Brasil”, disse Zema, na certa, querendo dizer que quem tem credibilidade é ele. (Vamos ver ao longo da campanha se não aparece nada contra o conterrâneo de Vorcaro…) Até então, Zema e Flávio eram visivelmente aliados. Em abril, chegaram a gravar um vídeo juntos em que o mineiro brincava que Flávio poderia ser seu vice.
União da direita
Por sua vez, Ronaldo Caiado (PSD-GO) preferiu ostentar lealdade. Cobrou explicações de Flávio, mas disse que não cabem ataques, pois, o “objetivo é derrotar Lula”. Tarcísio de Freitas, também, sempre leal, preferiu não comentar sobre o assunto quando questionado pela imprensa em compromisso público em São Paulo.
“Meme”
O baque na pré-campanha de Flávio Bolsonaro levanta dúvidas sobre a capacidade do senador de suportar pressão a nível nacional. A internet já ressuscitou antigo vídeo que virou “meme“ de Flávio quase desmaiando de nervoso durante um debate televisionado na campanha à Prefeitura do Rio, em 2016. A esquerda especula, inclusive, sobre uma possível desistência do senador em concorrer à Presidência da República. O nome de Flávio Bolsonaro estaria prestes a ser rifado pelo PL. Mas o presidente nacional da sigla, Valdemar da Costa Neto, nega a possibilidade. O pai, Jair Bolsonaro, também disse para o filho aguentar firme e que o nome de Michele Bolsonaro em seu lugar estaria descartado.
“Oportunismo”
Contudo, adversários, mesmo da direita, não deixarão barato. Zema já mostrou a que veio. Para ele, dane-se a “união da direita“ se não houver alguma credibilidade. O presidenciável Renan Santos, do partido Missão (MBL), pegou mais pesado ainda: disse que vai pedir a cassação do mandato de Flávio Bolsonaro ao Conselho de Ética do Senado. Muito provavelmente, não vai dar em nada. Mas Zema e Renan Santos deverão aproveitar o momento para tentar captar o eleitorado em potencial do bolsonarista. Muitos chamam essa postura de oportunismo, principalmente, de Zema, que, até então, era uma aparente aliado. Mas o que deveria ser mais importante: a lealdade a pessoas ou a valores ético e morais? Responder a essa questão muda tudo. Afinal, lealdade incondicional a pessoas cabe muito bem somente entre mafiosos.







