Jornalista responsável dos jornais do Grupo Paraná Comunicação (A Gazeta Cidade de Pinhais, A Gazeta Região Metropolitana, Agenda Local e Jardim das Américas Notícias)

É perfeitamente possível torcer pelo futebol sem ser alienado político

A velha ideia de que gostar de esporte anula o senso crítico está ultrapassada

Época de Copa do Mundo e o mesmo discurso se repete a cada quatro anos. Lá vêm os “críticos de plantão” contra a paixão do brasileiro por futebol e a torcida pela nossa seleção. Recriminam a alegria, a choradeira, as emoções, enfim, as festas, as comemorações ou um eventual choro da derrota. “Futebol é alienação”. “De novo, a política de pão e circo para manipular o povo”.

“Enquanto o povo comemora, os políticos roubam”. “Se todos conhecessem bem os políticos como conhecem os jogadores da seleção, o país estaria bem melhor”. Frases clichês como essas são repetidas como argumento contra os torcedores. Contra a paixão ou o mero interesse por futebol e em acompanhar a Copa.

“Alienação”

Mas quem disse que é preciso ignorar o futebol para deixar de ser alienado, politicamente? Ora, é absolutamente possível interessar-se por futebol, torcer com emoção ao mesmo tempo em que se acompanha a vida política nacional, do estado e de sua cidade. Uma coisa não tem nada a ver com a outra e uma coisa não anula, exclui, a outra. O que é terrivelmente chato e sem sentido é criticar quem gosta de futebol, quem torce e fica feliz ou triste pela seleção, tachando essa pessoa de “alienada”, “estúpida” ou “gado”. Como se houvesse um atestado de superioridade moral e intelectual naqueles que não gostam ou não torcem pelo futebol por que supostamente estariam cientes de todos os problemas nacionais e, mesmo, dos problemas relacionados a própria FIFA e todos os bastidores que controlam e organizam o campeonato.

Senso crítico

Creio que todo mundo conhece pessoas apaixonadas por futebol e que não são nada “alienadas”, politicamente. Procuram participar e até militar politicamente, seja na esquerda ou direita. Vão a passeatas, manifestações, cobram e fiscalizam a atividade de políticos. Tentam desenvolver um senso crítico e ideias próprias sobre política e o cenário atual no país, no mundo ou em suas comunidades. Buscam exercer plenamente sua cidadania, lutam por modificações e melhorias na sociedade, no poder público, no cotidiano do país e das cidades. É perfeitamente possível gostar, até, amar futebol ao mesmo tempo em que se informa e participa-se da vida política.

O que tem se tornado mais visível, a partir da polarização ideológica crescente, é o crescimento no número destes tais “críticos de plantão”, que tentam politizar, até, o futebol. A impressão que passam é que visam unicamente dividir a população: entre os “alienados” que curtem futebol e os “despertos e conscientes” que enxergariam a manipulação por detrás de tudo, dessa política de “pão e circo”.

Lúdico e lazer

A vida não é só política. A existência humana é composta de diversos tipos de experiências, de matizes e nuances que vão muito além da dimensão política. O lúdico, a diversão, o lazer, a descontração, disputas saudáveis no esporte, fazem parte das necessidades humanas. Ninguém vive, somente, de momentos de seriedade, de trabalho, de luta política ou pela sobrevivência. É necessário ao ser humano poder contar com momentos de lazer, de confraternização, de um pouco de leveza e ludicidade no dia-a-dia. Mesmo que o desempenho da seleção brasileira possa frustrar, irritar ou deixar a torcida nervosa, indignada.

Fanatismo

É claro que tudo tem um limite. Levar o futebol a sério demais, ao ponto de infartar, como aconteceu no último jogo com um torcedor brasileiro, não é nada saudável. Assim como as brigas de torcida, é sinal de fanatismo. Nenhum fanatismo é normal e aceitável, inclusive, na política. Entretanto, torcer de modo equilibrado, sem loucuras, é benéfico. Faz parte da busca pela saúde mental cultivar momentos de pura descontração, desligar-se um pouco dos problemas e demandas do cotidiano. Do contrário, ninguém aguenta. A saúde mental vai pro ralo sem momentos de lazer, diversão e socialização. E quem não gosta de futebol, não quer torcer, deve ser respeitado. Porém, deve respeitar quem gosta. Já, quem acredita que uma eventual vitória da seleção possa trazer repercussão política favorável ou desfavorável a determinados candidatos, simplesmente, ”viajou na maionese”. Incorre em fanatismo político. Uma forma, também, de alienação.

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