O presidente Donald Trump ganhou o apelido, nos Estados Unidos, de TACO (Trump always chicken out), o que significa “Trump sempre arrega” em relação às ameaças de pesadas taxações. As negociações com o Japão têm sido um exemplo. O republicano acaba de fechar um acordo comercial expressivo em que baixou as tarifas de 25% para 15% sobre o país asiático. As negociações com a União Europeia também avançam. Estas recentes notícias levaram a fortes altas nas Bolsas de Valores no mundo. Já em relação ao Brasil, ainda não há perspectiva de negociações para um acordo comercial entre os dois países.
Negociação não é “viralatice”
O impasse, aqui, se dá em relação a uma postura meramente ideológica do governo brasileiro. Tem havido um equívoco de mentalidade sobre o significado de “negociar” e o significado de “baixar a cabeça para o imperialismo americano“. Não se pode confundir duas posturas muito diferentes. O Brasil deve buscar negociar com os Estados Unidos para acordos comerciais que sejam vantajosos para ambos os países. Buscar o diálogo e negociar não se trata de vassalagem e “viralatice”, como se tem dito por aí. É óbvio, porém, que o governo brasileiro deve buscar um acordo que seja vantajoso para o Brasil, também. Do contrário, seria “viralatice“, realmente.
Estupidez ideológica
Mas defender a ideia de que valorizar o Brasil seria “bater de frente” com Trump, sem chance para o diálogo e a negociação, já de antemão, tachando qualquer tentativa de aproximação para trocas comerciais de “submissão ao imperialismo americano”, não passa de uma postura ideológica estúpida. Se tantos países desenvolvidos estão negociando com Trump, a exemplo da União Europeia e do Japão, por que o Brasil deveria ficar de fora só para “não se submeter” ao estilo arrogante e impositivo do republicano?
O “TACO” aliás, já dá sinais de que deverá baixar tarifas somente aos países que abrirem mercados aos Estados Unidos. Que estiverem abertos a importar produtos americanos. Àqueles que não estiverem dispostos a abrir mercados, ameaça aumentar ainda mais as sanções comerciais.
Negócios e “amizade”
O que o governo brasileiro deve ter em mente é que fechar negócios e acordos comerciais não tem nada a ver com gostar ou simpatizar com a outra parte. Não se negocia, apenas, com amigos. Trump é arrogante, ditatorial, está se achando o grande imperador do mundo e, mais especificamente, do Brasil. Mas tem poder de fogo, tem cacife para negociar devido ainda ao império econômico que comanda, a maior potência econômica do mundo. Claro, um império que dá sinais de decadência, ameaçado pelo poderio do gigante asiático, a China, que, aliás, vem sendo considerada por alguns economistas como uma potência que já ultrapassa os Estados Unidos, economicamente. Mas a força norte-americana ainda não ruiu. Os Estados Unidos da América ainda representam um grande mercado. Não seria inteligente ao Brasil abrir mão de negociar com este grande mercado, independentemente de preferências políticas e ideológicas.
“Engolir sapos para fechar bons negócios“
Quando um empresário ou mesmo um pequeno comerciante está negociando com possíveis parceiros, clientes ou fornecedores, não faz o mínimo sentido querer negociar somente com aqueles de quem se gosta, se admira. Quantos homens de negócios bem-sucedidos já tiveram de engolir sapos de clientes, de parceiros, de associados para ganhar dinheiro ou ao menos, não perder? Para não perder bons negócios é necessário simplesmente “aturar” clientes e parceiros chatos, arrogantes ou, até, de péssimo caráter. Na lógica do mundo dos negócios não há espaço para simpatias ou antipatias pessoais. A mesma lógica aplica-se às negociações entre países.
Economia com viés ideológico
Tanto a direita como a esquerda, têm defendido que o Brasil faça acordos e parcerias comerciais, apenas, com países alinhados ideologicamente. A esquerda sonha em ver o imperialismo americano ruir por completo. Aposta na força dos BRICS para acabar de vez com o poderio econômico dos yankees. Já a direita bolsonarista, tem horror a China “comunista“, defendendo um afastamento comercial do gigante asiático e de outras ditaduras como o Irã. São dois polos ideológicos de mentalidade muito semelhante, onde se defende a primazia da ideologia sobre os interesses econômicos.
“Escrúpulos”
Do ponto de vista comercial e dos interesses econômicos do Brasil, nenhuma das duas posturas é vantajosa ao nosso país. Assim como os homens de negócios mais bem sucedidos não têm “escrúpulos” em negociar com quem não gostam ou com quem não concordam, as nações mais poderosas fazem o mesmo. E dane-se se o Trump não presta, se a China é “comunista”, se o Irã é um califado islâmico. Cada país tem seus problemas internos que não são de responsabilidade de outras nações e são soberanos, politicamente.
Pretexto político
Trump foi muito esperto ao colocar Bolsonaro e a “liberdade de expressão” no meio do tarifaço. Pois, sabe da nossa polarização interna, inventando um pretexto político para aplicar as pesadas sanções comerciais. Mas Bolsonaro e a liberdade de expressão foram apenas um pretexto para fazer o quê ele já queria fazer. Incomodado com os BRICS, sentindo a “América” profundamente ameaçada pelos emergentes dispostos a desdolarizar as transações comerciais, iria taxar o Brasil com ou sem Bolsonaro e Alexandre de Moraes. Aproveitou-se de nosso cenário interno dividido politicamente para dividi-lo ainda mais, acirrando a polarização. Assim, esquiva-se em admitir que o grande problema é a ameaça dos BRICS. Ou alguém acredita que Trump, os EUA, estão preocupados com democracia e liberdade de expressão em um país emergente da América Latina? E que Trump se importa se a família Bolsonaro sofre alguma suposta injustiça? Se Trump realmente estivesse preocupado com democracia e liberdade de expressão na América Latina, iria mexer com a Venezuela, primeiramente.
União e patriotismo
Seria o momento de todo o povo brasileiro unir-se em defesa da economia do país, de um verdadeiro patriotismo em prol de negociações comerciais vantajosas para o Brasil. Ao invés de reforçar uma divisão interna em que os únicos perdedores estão sendo o povo brasileiro, os trabalhadores e os empresários. Há empregos em jogo. Há rendas familiares em jogo. Não é o momento para disputas ideológicas.







