Jornalista responsável dos jornais do Grupo Paraná Comunicação (A Gazeta Cidade de Pinhais, A Gazeta Região Metropolitana, Agenda Local e Jardim das Américas Notícias)

Voto para deputado continua “esquecido”, o que explica grande parte dos nossos problemas

Pesquisa Datafolha revela o alarmante esquecimento do eleitor sobre o Poder Legislativo e como isso sabota o futuro político do Brasil.

A pesquisa Datafolha, divulgada no último dia 28 de junho, revelou dados desoladores sobre o eleitorado brasileiro. A imensa maioria dos entrevistados não lembra em quem votou para os cargos do Poder Legislativo – deputado federal, senador e deputado estadual -, nas últimas eleições, em 2022. O levantamento aponta, ainda, que, quatro em cada dez entrevistados, não lembra ou não sabe citar nenhum nome de senador atualmente em exercício.

Já para a presidência da República, 85% revelaram lembrar em quem votaram em 2022. Mas para deputado federal, 67% disseram não se recordar e 10% disseram não terem votado em algum candidato. Para deputado estadual, os números são semelhantes, com 66% afirmando não se lembrarem e 10% não terem votado. Na pergunta espontânea sobre citar algum nome de senador em exercício, 40% não conseguiram citar nenhum e 35% disseram não saber, somando o alarmante percentual de 75%. Entre os que lembraram, o senador Flávio Bolsonaro foi o mais citado, com 3% dos entrevistados tendo lembrado do nome do filho mais velho do ex-presidente Jair Bolsonaro, que é pré-candidato à presidência da República. O senador Romário, ex-jogador de futebol, foi o segundo mais citado (2%), assim como os senadores Cleitinho e Sérgio Moro, ambos, também, citados por 2%. Outros poucos nomes, também, foram lembrados, em menor percentual. Entre os deputados federais, a falta de memória ou desconhecimento do eleitorado, também, foi gritante. Apenas seis, dos 513 deputados em exercício, foram lembrados: Nikolas Ferreira, Erika Hilton, Kim Kataguiri, Sâmia Bonfim, Lindbergh Farias e Gustavo Gayer. Todos estes, vale lembrar, bastante ativos nas redes sociais e sempre envolvidos em polêmicas que geram muito engajamento. O deputado federal cassado em dezembro passado, Eduardo Bolsonaro, outro terrível polemista nas redes sociais, também foi citado, além do senador Cleitinho, confundido com deputado federal.

Mesmo entre os deputados lembrados, destaca-se o baixo percentual dos eleitores que conseguiram citar um nome. O mais lembrado, Nikolas Ferreira, foi citado apenas por 6% dos entrevistados.

Desvalorização

A pesquisa revela um comportamento já arraigado no eleitorado brasileiro desde a redemocratização. O eleitor tradicionalmente não costuma valorizar e interessar-se pelas eleições ao Poder Legislativo. Cultiva-se ainda a equivocada ideia de que as eleições para o Poder Executivo, seja federal, estadual ou municipal, são as mais importantes. O eleitor médio não adquiriu ainda o entendimento de que as eleições para o Poder Legislativo são tão importantes quanto.

Democracia tripartite

E que o Poder Legislativo, num sistema de democracia tripartite, detém o mesmo nível de poder que o Poder Executivo e o Poder Judiciário. O que se traduz em igual poder de decisão e de influência para mudar o rumo das coisas no país, no estado ou nos municípios. Tanto um presidente da República, como um governador ou um prefeito, não conseguem governar sem apoio de uma base aliada no Poder Legislativo. Mas infelizmente os cargos no Poder Legislativo não atraem tanta atenção do eleitorado. O grande motivo é a menor visibilidade na mídia. E aí, creio que a imprensa talvez deva fazer um ‘mea culpa’ para essa falta de visibilidade. Ora, se as coisas estão como estão no país, ou nos estados e municípios, em grande parte, este cenário, positivo ou negativo, deve-se a atuação do parlamento. Faltam estratégias de comunicação mais efetivas a esses parlamentares. Quando têm algo bom para mostrar, obviamente. O que, muitas vezes, também, não acontece.

Prerrogativas

É decisivo que o eleitorado adquira maior consciência da importância do voto para deputados federal e estadual, além de senadores. Compreender as atribuições de cada cargo eletivo, prerrogativas, funções deve facilitar ao eleitoral valorizar o verdadeiro papel do parlamento. Um papel que compreende um dos pilares da democracia. Afinal, numa democracia, um presidente da República, um governador ou um prefeito, não pode tomar decisões sozinho, de forma autocrática, sem passar por um referendo no parlamento. Se assim o fizesse, poderia ser considerado um ditador, um governante antidemocrático.

Omissão

De nada adianta reclamar da situação do país, do estado ou dos municípios, se não há responsabilidade para com o voto, também, ao Poder Legislativo. Quem termina por lucrar politicamente com esta alienação e desinteresse do eleitor em relação ao Legislativo são os maus políticos. Aqueles deputados e senadores que apelam a compra de votos e a propostas populistas de última hora, eleitoreiras. Ou são eleitos em cima de polêmicas vazias. Muitos destes costumam, também, ser eleitos e reeleitos por eleitores de seus currais eleitorais. A venda de votos ainda continua. Este eleitor que vende seu voto simplesmente “esquece” de acompanhar o exercício do mandato. Deixando livres estes parlamentares para roubarem, corromperem-se, fazerem conchavos e trocas de favores imorais e até ilegais e votarem contra os interesses da população.

Duras consequências

Isso precisa acabar. O eleitor precisa entender que ”o maior castigo para quem não se interessa por política é ser governado por quem se interessa“. Este famoso aforismo, atribuído ao filósofo Platão, revela as consequências de abrir mão do poder de escolha pelo voto, transferindo esse poder de escolha unicamente aos políticos no poder. É omissão. Mas as consequências recaem a todos, inclusive, aos que abriram mão de decidir e votar com consciência e responsabilidade.

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