Consumo e endividamento: Impactos e prevenção

Especialistas alertam: o parcelamento de despesas básicas no supermercado e farmácia está desorganizando o orçamento das famílias e elevando o risco de inadimplência no país

O volume de endividamento das famílias brasileiras apresenta um crescimento preocupante impulsionado por novas estratégias de consumo e a oferta facilitada de crédito para despesas ordinárias. Especialistas em economia e sociologia alertam que o hábito de parcelar compras cotidianas, como supermercado e farmácia, tem transformado o crédito em um complemento perigoso à renda mensal. Com 81,7 milhões de brasileiros inadimplentes, entender a diferença entre limite bancário e salário real tornou-se fundamental para evitar as armadilhas dos juros altos e do cartão de crédito.

A cena tornou-se rotineira: ao passar pelo caixa de um supermercado ou posto de gasolina, o consumidor é prontamente questionado se deseja parcelar a despesa. Embora pareça uma facilidade imediata, essa prática esconde um risco estrutural para a saúde financeira. Especialistas apontam que o uso do crediário para custear o orçamento mensal desnatura a função do crédito, que deveria ser reservado para bens duráveis ou investimentos de longo prazo.

De acordo com o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), a desorganização das contas ocorre quando o crédito passa a ser visto como renda extra. Quando o consumidor utiliza recursos de terceiros para despesas de sobrevivência, ele compromete ganhos futuros, criando uma dependência que pode levar ao superendividamento de forma silenciosa.

A ansiedade de consumo e os estímulos do mercado

A oferta agressiva de parcelamentos sem juros, aliada à propaganda digital e à influência de redes sociais, fomenta o que economistas chamam de “ansiedade de consumo”. Segundo pesquisadores da Fundação Getulio Vargas (FGV), existe um comportamento cultural de antecipação do consumo. As pessoas buscam ter acesso imediato a produtos que ainda não podem pagar à vista, respondendo a estímulos visuais constantes.

O grande problema reside na falta de planejamento: a parte “menos glamourosa” de colocar os gastos na ponta do lápis é frequentemente ignorada. Sem o cálculo do impacto das parcelas acumuladas, o consumidor acaba perdendo o controle e recorrendo a modalidades de crédito com taxas abusivas, como o cheque especial e o rotativo do cartão de crédito.

Diferença entre limite de crédito e renda real

Um dos erros mais comuns identificados por consultorias financeiras é a confusão entre o limite disponível no banco e o salário recebido. É essencial compreender que o limite do cartão de crédito não é uma extensão do salário. Se um cidadão recebe R$ 5 mil e possui R$ 5 mil de limite, ele não dispõe de R$ 10 mil para gastar. O pagamento da fatura deve, obrigatoriamente, caber dentro da renda líquida do mês.

Ao ignorar essa lógica, o trabalhador acaba “drenando” parte de sua renda para o sistema financeiro na forma de juros. Quanto menor a nota de crédito (score) do indivíduo, mais caras são as opções de empréstimo disponíveis, o que penaliza severamente as camadas da população que ganham até dois salários mínimos e não possuem acesso a créditos mais baratos, como o consignado.

Educação financeira e prevenção da inadimplência

Para reverter o cenário de 81,7 milhões de inadimplentes, a educação financeira surge como o pilar mais importante. Programas emergenciais como o Desenrola são fundamentais para o curto prazo, limpando o nome de milhões de pessoas, mas a solução definitiva é estrutural. É necessário capacitar o cidadão para que ele saiba calcular o custo efetivo total de uma dívida antes de assiná-la.

O planejamento financeiro pessoal deve incluir:

  • Diferenciação entre desejos de consumo e necessidades básicas.

  • Cálculo antecipado de todas as parcelas já comprometidas no cartão.

  • Manutenção de uma reserva de emergência para evitar o uso do cheque especial.

  • Priorização do pagamento à vista para despesas de consumo imediato.

Dados atuais da inadimplência no Brasil

Segundo dados do Banco Central referentes a março de 2026, a inadimplência no Sistema Financeiro Nacional alcançou R$ 238,5 bilhões. Embora o percentual de atrasos em relação ao crédito total pareça controlado, o número absoluto de pessoas negativadas é alarmante. A Serasa Experian aponta que quase metade dessas dívidas (47,1%) é vinculada a bancos e financeiras, evidenciando que o cartão de crédito e o empréstimo pessoal continuam sendo os principais vilões do orçamento doméstico.

Medidas simples de prevenção, como evitar o contato com ofertas tentadoras quando o orçamento já está no limite e manter os ambientes de decisão financeira ventilados de influências externas, ajudam a reduzir a pressão sobre a renda do trabalhador.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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