O breve “flerte” do presidente Donald Trump ao presidente Lula nos bastidores da Assembleia Geral da ONU, em Nova York, foi surpreendente. O republicano falou, em discurso no evento, da “química” que teria acontecido entre ambos quando rapidamente se encontraram nos corredores, antes de Trump subir ao púlpito para discursar. “Gostei dele. Houve uma química entre nós. Ele parece um cara legal. E só gosto de negociar com quem eu gosto”.
O presidente Trump, costuma-se dizer, é homem de comportamento imprevisível. Mas seria mesmo tão imprevisível, assim, o experiente homem de negócios que foi, e ainda é, Donald Trump? Talvez, não passe de estratégia o breve “afago” ao presidente do Brasil. É nisso que têm apostado os bolsonaristas. Eduardo Bolsonaro classificou a postura de Trump em relação a Lula, de “genial“. Para o filho 03 de Jair Bolsonaro, tudo não passaria de uma estratégia do norte-americano para “jogar a batata quente” para Lula. “Olha, estou mostrando ao mundo que estou aberto a negociar com o Brasil. Se não acontecer, foi por que Lula não quis“.
A intrigante personalidade de Donald Trump tem gerado diversas hipóteses. Setores da esquerda têm visto com cautela o afago do republicano ao petista. “Talvez, seja uma cilada, uma arapuca. Melhor não se animar. Talvez, ele queira humilhar Lula no encontro como fez com Zelensky”.
“Carisma”
Já, parte da militância de esquerda comemora e vê o “flerte” como um bom sinal. Seria o “carisma” de Lula que teria gerado simpatia em Trump. E o caminho para um diálogo civilizado, ao menos, estaria aberto após o encontro pessoal entre ambos, acompanhado, inclusive, da iniciativa de um abraço de Trump em Lula.
“Rolou uma química“
O presidente Lula corroborou as boas impressões entre ambos, tendo dito que realmente “rolou uma química”. Ainda, afirmou, em coletiva de imprensa no evento da ONU, que espera que ambos tenham uma conversa civilizada, de respeito. ”Afinal, somos dois homens de quase oitenta anos”. O Itamaraty disse que o presidente Lula deverá conversar por telefone, na próxima semana, pois, a agenda de ambos os presidentes não permitiria um encontro pessoal, por ora.
Afago como estratégia
Possivelmente, as reais intenções de Trump concentrem uma mescla de todas as hipóteses aqui, apresentadas. É bem possível que faça parte de uma estratégia política de Trump o afago a Lula. Para mostrar ao mundo que está aberto ao diálogo com Lula, que quer negociar com o Brasil. A questão é: em que termos se daria essa negociação? Trump, um homem de negócios experiente e astuto, já deve ter se dado conta de que o Brasil não deverá ceder em sua soberania em relação a decisões do STF contra Bolsonaro e bolsonaristas. Assim, não seria realista apostar que haverá alguma chance de mudança de rumo em relação a questão política. Nem com todas as sanções, o STF, o ministro Alexandre de Moraes, recuou ou deverá recuar. O Xandão já se mostrou irredutível. Se Trump não é bobo, já deve ter caído na real, mesmo após aplicar a Lei Magnitsky contra a esposa de Moraes, também, em decisão no início da semana.
Química real e espontânea
Então, quais seriam as intenções de Trump ao chamar Lula para uma conversa, anunciando isto publicamente na Assembleia Geral da ONU? Não é improvável que realmente tenha sido sincero em relação a “química” com Lula. Há quem tenha sentido como um deboche de Trump a Lula. Mera demonstração de cinismo, beirando o sarcasmo. Contudo, foi perceptível pelo tom de voz e expressões faciais de Trump que estava sendo sincero. A impressão é que o norte-americano sentiu que necessita mudar de estratégia para conseguir o que quer do Brasil, economicamente. Assim, aproveitando-se da “química” real e imediata sentida com Lula, deu uma guinada no comportamento, já que concluiu que bater de frente com o petista e Alexandre de Moraes não funciona. Nem Lula, nem Xandão, cederam às pressões e sanções.
Tudo pela negociação
Trump parece não ter dificuldades em mudar de estratégia e de adaptar-se em seu comportamento para atingir seus objetivos. No final das contas, o que importa, para ele, é conseguir negociar e obter o que quer das pessoas e países. O presidente Trump deve ter dado essa guinada na atitude em relação a Lula de modo instintivo, espontâneo, assim que sentiu que bateu a “química” com Lula. E não de modo friamente calculista e dissimulado como sugeriu Eduardo Bolsonaro. Obviamente, é preciso cautela: ”o homem amansa o cavalo para conseguir montá-lo”, diz a sabedoria popular.
Recalque e projeção
Se houve algum deboche no discurso de Trump, o mais próximo disso foi quando disse que “o Brasil vai mal sem os Estados Unidos e só ficará bem quando se aliar a nós. “Foi, até, meio engraçado o bullying do norte-americano… Em agosto, após o tarifaço, as exportações do Brasil cresceram 3,9%. Mesmo tendo caído as exportações para os EUA. O Brasil trocou os EUA pelo México, Argentina e China, em especial.
Ameaça da China e pressões internas
Afinal, quem vai mal sem o Brasil são os Estados Unidos. Trump, se não for burro feito uma porta, já se deu conta de que o tarifaço terminou por empurrar, de vez, o Brasil para o colo da China. Tudo o que Trump não queria… Enfim, quando diz que o Brasil vai mal sem os EUA é apenas uma demonstração de puro recalque . Seria humilhação dizer a verdade: que os EUA precisam aliar-se ao Brasil para barrar o avanço da China. Mas não cairia bem admitir uma situação humilhante como essa a ainda maior potência econômica mundial, então, foi preciso inverter a realidade no discurso. Em psicologia, este mecanismo de defesa é chamado de “projeção“. O mesmo mecanismo utilizado nas relações humanas, em geral. É o mesmo caso daquele ciumento que acusa o par de estar com ciúmes quando, na verdade, é ele quem sente ciúmes, mas não quer admitir e precisa transmitir domínio na relação. Puro recalque de Donald Trump ao se dar conta de que os EUA perderam para a China e países emergentes boa parte das nossas exportações. Nossa balança comercial apresentou superávit em agosto passado. Enquanto os Estados Unidos têm amargado hiperinflação, desemprego e pressão do empresariado sobre o presidente Trump.







