Vivemos em um mundo globalizado, em constante transformação. Nesses mais de 25 anos atuando como pediatra, percebo a mudança também nas famílias.
Os avanços tecnológicos que ocorreram nas últimas três décadas transformaram o nosso modo de viver como nunca antes. Mudamos o jeito de comprar, de ler, de contar, de contatar as pessoas, de pagar, enfim, mudamos totalmente o nosso jeito de viver.
Enquanto isso, pai que antes quase nunca aparecia, hoje vem com mais frequência às consultas. A mãe que antes ficava em casa, na maioria das vezes cuidando dos filhos, hoje trabalha e constrói uma carreira. As crianças, que antes tinham dois, três, quatro irmãos e muitos primos, hoje têm no máximo um ou dois irmãos e às vezes nem primos têm. Animais de estimação, que anteriormente ficavam nos quintais, hoje têm até festa de aniversário.
Quer gostemos ou não, é preciso se adaptar e vivenciar essas transformações. Há uma mudança, no entanto, que me preocupa bastante: o abandono virtual.
Com o advento da internet e, posteriormente, dos smartphones, passamos a ter o mundo todo na palma da mão. Isso facilitou pesquisas, contribuiu para encontrarmos pessoas do outro lado do planeta, para encontrarmos amigos de infância, entre tantas coisas boas. Todavia, a disseminação das redes sociais (que utilizam algoritmos direcionados a prender nossa atenção e a liberar dopamina num ritmo frenético) tem nos desconectado das pessoas mais próximas. Em nosso país, milhares de pessoas estão com seus celulares nas mãos por horas, dia após dia. E é aí que surge espaço para esse tipo de abandono.
Entenda: considerando que o desenvolvimento dos bebês é certamente influenciado pelo contato e pela interação com os seres humanos nos primeiros anos, especialmente pelo pai e pela mãe, e que a atenção exigida nessa interação deve ser plena, fica evidente o risco de abandono que bebês sofrem com os pais interessados o tempo todo em telas, por exemplo.
Para piorar, temos o fato de que muitos, para acalmarem os bebês ou as crianças, fornecem a eles telas. E praticamente sem controle de acesso aos dados. Isso também gera vulnerabilidade da criança em relação à internet, agravada pela falta de maturidade emocional e pelo estágio de formação do indivíduo, que está em construção na sua personalidade e da sua identidade.
Não é por acaso que temos visto tragédias acontecendo com crianças e adolescentes: atrocidades, automutilação, barbáries com animais e até mesmo indução ao homicídio e ao suicídio. Essas crianças e adolescentes, antes de mais nada, estão abandonadas no mundo virtual, mesmo morando em casas ou apartamentos dentro de condomínios fechados.
É preciso que toda a sociedade reflita sobre o problema. E que os pais pensem se não estão abandonando seus filhos, mesmo que estejam fisicamente no mesmo ambiente. É uma questão urgente! E pode ser melhorada com a tomada correta de decisões pelos adultos.
Fausto Flor Carvalho é pediatra, psicanalista e autor de “Bom pai, mau pai” e “Pai sem sacrifício”.











