Uma inovação científica da Universidade Federal do Paraná (UFPR) pode ser a chave para salvar os jumentos da extinção no Brasil. Pesquisadores do Laboratório de Zootecnia Celular desenvolvem um método inédito de fermentação de precisão para produzir colágeno de jumento em laboratório. A tecnologia visa atender à alta demanda da indústria chinesa pelo ejiao — gelatina medicinal extraída da pele do animal — sem a necessidade de abate, transformando um mercado de US$ 1,9 bilhão em uma operação sustentável.
A população de jumentos no Brasil sofreu uma queda drástica de 94% entre 1996 e 2024, restando apenas seis animais para cada 100 que existiam há três décadas. Diante desse cenário crítico, a equipe da UFPR busca agora um investimento de US$ 2 milhões para escalar a produção de colágeno sintético. O aporte permitirá que a tecnologia saia das bancadas laboratoriais para biorreatores de grande porte, viabilizando a produção industrial já em 2027.
Fermentação de precisão e a biofábrica de colágeno
O processo consiste na modificação genética de micro-organismos para que funcionem como “biofábricas”. Segundo Carla Molento, coordenadora do projeto e PhD pela Universidade McGill, a técnica insere o DNA do colágeno em leveduras que produzem a proteína de forma similar à fabricação de cerveja. O objetivo é apresentar a prova de conceito — a produção das primeiras miligramas de colágeno integralmente laboratorial — até dezembro de 2026.
Potencial econômico e mercado B2B com a China
O mercado de ejiao tem projeção de alcançar US$ 3,8 bilhões até 2032, com um crescimento anual de 9,1%. Atualmente, a extração depende do abate extrativista, que gera pouco retorno econômico local e graves dilemas éticos. A alternativa paranaense foca no modelo de negócio B2B, vendendo o colágeno purificado diretamente para indústrias de beleza e saúde, garantindo um produto de alta qualidade e livre de crueldade animal.
Parcerias estratégicas e sustentabilidade ambiental
O projeto conta com o apoio do Ministério do Meio Ambiente, da Fundação Araucária e da Universidade de Wageningen, na Holanda. Além de preservar a espécie, a produção em biorreatores é ambientalmente mais eficiente que o modelo de fazendas tradicionais, ocupando menos espaço e consumindo menos insumos. A tecnologia desenvolvida na UFPR abre portas para que outras proteínas animais também sejam produzidas via fermentação, consolidando o Brasil na vanguarda da biotecnologia mundial.







