Seria cômico se não fosse trágico. Na terça-feira (10/06), o ex-presidente Jair Bolsonaro prestou depoimento durante interrogatório à Primeira Turma do STF no âmbito da ação penal que julga uma suposta trama golpista perpetrada por alguns membros do governo passado, em 2022. Esperava-se um embate tenso e incisivo de ambas as partes: Bolsonaro e Xandão. Afinal, encontravam-se cara a cara dois “inimigos“ políticos: de um lado, o ministro Alexandre de Moraes e, de outro, o ex-presidente.
Mas o que se viu foram dois “gatinhos” mansinhos, e com um certo senso de humor duvidoso. Ao invés de os dois “leões” a rugir incessantemente, de até então, que protagonizaram um embate político-ideológico dos mais
acirrados ao longo dos últimos anos na História do país.
Pedido de desculpas
Talvez, para decepção dos mais ferrenhos apoiadores de Bolsonaro entre o eleitorado, vimos um ex-presidente pedindo desculpas a Moraes por ter dito, nos bastidores, que o ministro, juntamente com os colegas da Suprema Corte, Barroso e Fachin, teriam recebido algumas dezenas de milhões de dólares para fraudarem as eleições. O pedido de desculpas veio acompanhado de uma explicação um tanto galhofeira: tudo teria sido um exagero de retórica em uma conversa que nem deveria ter sido gravada. Afinal, nunca teve provas ou indícios de tal suposição. Coisas do temperamento intempestivo do ex-presidente…
“Maluquice“
Mas o que deve ter doído na alma, mesmo, dos bolsonaristas mais apaixonados foi o “diagnóstico” do ex-presidente a seus apoiadores que defendiam o AI5, a intervenção militar: ”maluquice”. Quer dizer que toda aquela multidão em frente aos quartéis a espera de uma ação contundente, incisiva, das Forças Armadas para impedir a posse de Lula e anular as eleições presidenciais não passavam de “malucos”? E frisou ainda que considera uma “abominação” qualquer tentativa de golpe. Ora, por que esse “diagnóstico psiquiátrico” não foi dito, antes, naquele período, publicamente, demovendo aquele povo todo da frente dos quartéis? Era tão simples… Bastava uma frase forte, de comando, digna de um capitão: ”voltem para suas casas, seus malucos, e desistam dessa abominação”.
Contradição
Mas, não. Ao contrário, Bolsonaro, em 9 de dezembro de 2022, compareceu em frente a um dos acampamentos em Brasília para dar esperanças ao povo acampado, referindo-se a possibilidade de contar com a ajuda e apoio das Forças Armadas para reverter a vitória eleitoral de Lula. Portais como O Antagonista colaboraram para refrescar a memória do público com a divulgação de tal vídeo nesta data… Ficou feio ser flagrado em contradição…
Galhofa
O tom de galhofa chegou ao auge quando Bolsonaro fez piada com Alexandre de Moraes ao convidá-lo para ser seu vice, em 2026. Moraes entrou na brincadeira respondendo com bom humor e leveza: ”eu declino”. Muitos se perguntam, entre a esquerda e a direita, o que teria levado o ex-presidente fazer uma piada tão sem graça num interrogatório de ação penal a seu “arqui-inimigo” Alexandre de Moraes?
Medo ou provocação?
O deputado federal petista Lindbergh Farias escreveu, nas redes sociais, que interpreta como uma provocação a Moraes. Como quem quisesse insinuar que se trata de um julgamento político. Outra interpretação no debate público gira em torno da hipótese de ser uma maneira desastrada de tentar agradar ao ministro, demonstrando uma certa simpatia e afinidade. “Olha, podemos fazer as pazes e até montarmos uma chapa juntos”. Seria puro medo da caneta pesada do Xandão. Possivelmente, tenha sido uma mistura de medo e de provocação. “Estou apreensivo mas vou simular descontração. Afinal, quem não deve, não teme”. O corte desse trecho do depoimento seria para delírio da militância:” este é um julgamento político. Talvez, Xandão revele-se uma espécie de Sérgio Moro e tenha ambições políticas”. E indo além em mensagem para a militância e eleitorado: ”serei candidato em 2026. Vou sair ileso e vitorioso dessa situação“. Curiosamente, Xandão nem mencionou a inelegibilidade de Bolsonaro. Apenas, entrou na brincadeira. O ministro, talvez, estrategicamente, não quis demonstrar algum posicionamento político contra a possibilidade de reversão da inelegibilidade, mantendo-se imparcial em sua postura pública.
“Moraes paz e amor”
Aliás, estranhou-se, ainda, a postura mais leve e receptiva de Alexandre de Moraes. O ministro deixou Bolsonaro a vontade para falar o que quisesse, do jeito que lhe conviesse. Alguns setores da militância de esquerda não gostaram do jeito ”mansinho“ do magistrado. Queriam ver sangue. Esperavam um duro embate verbal digno de uma arena. Ao que tudo indica, Moraes tenha calculado essa postura mais branda nas palavras para não dar margem a acusações de detratores de que estaria sendo parcial, injusto e atuando como um perseguidor político. Para não dar motivo para críticas, deixando claro que assegurou ampla defesa ao réu Bolsonaro e que não há nenhuma motivação político-ideológica neste julgamento.
Estratégia e palanque
Acredito que tenha sido uma estratégia muito inteligente, mesmo que possa ter gerado uma oportunidade de palanque para Bolsonaro enriquecer sua narrativa para a militância. No final das contas, o que deverá ser decisivo para a condenação ou absolvição de Bolsonaro e dos demais réus serão as provas. Bolsonaro negou tentativa de golpe, mas admitiu buscar alternativas legais para reverter o cenário eleitoral de 2022. Disse que não participou da redação da minuta do golpe, contradizendo o depoimento de seu então ajudante de ordens tenente-coronel Mauro Cid. Em delação premiada e no depoimento da ação penal, no dia anterior, Mauro Cid disse que Bolsonaro teria alterado o texto da minuta do golpe, enxugando-o. O documento pedia a prisão de ministros do STF e de outras autoridades. Entre as alterações, Bolsonaro teria deixado somente a prisão de Moraes. Mauro Cid ainda disse que em concomitante a minuta do golpe, o Almirante Garnier, então comandante da Marinha, havia colocado as tropas a disposição do presidente Bolsonaro para o golpe.
Delação premiada
Bolsonaristas mais acalorados, ainda remanescentes entre o eleitorado, têm se recusado a acreditar na delação de Mauro Cid. Acreditam que ele tenha sido pressionado a delatar de forma compatível a suposta narrativa do STF. Entretanto, a delação premiada é um instrumento da justiça amplamente utilizado e que demanda a apresentação de provas ou de fortes indícios de veracidade. Não é sair dizendo qualquer coisa sem sentido para “enganar” a Justiça. A delação premiada foi amplamente utilizada na Lava-Jato. Sem ela, as condenações de Sérgio Moro não teriam sido possíveis. E é digno de nota que, ninguém, entre o eleitorado de direita, duvidou da veracidade de tais delações naquela época, não? Mais uma ironia do destino no cenário nacional desta polarização política que, parece, ainda não dá sinais de enfraquecer…







