Jornalista responsável dos jornais do Grupo Paraná Comunicação (A Gazeta Cidade de Pinhais, A Gazeta Região Metropolitana, Agenda Local e Jardim das Américas Notícias)

Desmatamento e negacionismo climático podem favorecer a ocorrência de tornados

O recente tornado em Rio Bonito do Iguaçu reacende o debate sobre o Corredor de Tornados e os fatores que intensificam esses fenômenos no Sul do Brasil

Após o tornado que destruiu a cidade de Rio Bonito do Iguaçu, a imprensa tem publicado matérias que especulam as possíveis causas para a ocorrência de um fenômeno tão intenso e devastador. Entre as notícias, leio que o Paraná encontra-se em uma área que é o segundo maior corredor de tornados do mundo. Um corredor que compõe uma extensa área que abrange toda a região Sul do país e partes da Argentina, Uruguai, Paraguai e Colômbia.

 

Brasil e EUA, campeões em tornados

O maior corredor de tornados do mundo está nos Estados Unidos, nas pradarias centrais, compostas por relevos planos e áreas de baixa altitude. O Paraná, por basicamente apresentar uma topografia de relevos planos, sem morros e montanhas, seria o estado do Brasil mais propenso a formação de tornados. A confluência de massas de ar polar vindas do sul e de massas de ar quente vindas da Amazônia e do Chaco propiciam a formação deste fenômeno, que sempre ocorre associado a formação de ciclones nos oceanos, também.

 

Prevenção

Cientes desta característica de nosso estado, é imprescindível que o poder público e a sociedade civil organizada adotem medidas preventivas a fim de, não, somente, elaborar planos logísticos para abrigo e proteção das populações e da infraestrutura dos municípios, mas, que, também, adotem políticas públicas permanentes que, possam, talvez, reduzir a ocorrência e intensidade dos tornados e de outros fenômenos climáticos devastadores.

 

Negacionismo climático

Muito embora, o negacionismo climático tenha aumentado entre a opinião pública, é muito perceptível que o número e intensidade de eventos climáticos extremos como, ciclones e tornados, tem aumentado, a cada ano. Nas redes sociais, após o tornado de Rio Bonito do Iguaçu, não poderia faltar a voz ruidosa dos negacionistas das mudanças climáticas. Encontra-se de tudo, nas redes sociais. “Foi o projeto HAARP de manipulação do clima”, alguns “explicaram”, ao referirem-se a suposta tecnologia com o uso de antenas capazes de manipular o clima a um nível regional. Outros, mais “ousados” em suas “certezas”, recusaram-se a acreditar na veracidade das imagens da cidade devastada. ”São imagens de Inteligência Artificial. Isso não é real. Mais uma farsa da mídia”, proclamaram, convictos.

 

“Normalização“

Maior tem sido a quantidade de pessoas que negam que algo estranho, anormal, desequilibrado, esteja acontecendo com o clima. “Tornados, ciclones, furacões, enchentes, secas, sempre existiram. Desde os tempos de meus bisavós, essa região do Paraná tem sido assolada por tornados”, alegam. A questão é que, se, por um lado, tornados e ciclones realmente não são fenômenos novos, por outro lado, também, é uma realidade que estes eventos climáticos extremos têm se tornado mais intensos e mais frequentes. Eis, o ponto fundamental.

 

Ação do homem e o clima

Em 1959, por exemplo, 90 pessoas morreram em decorrência de um tornado que atingiu a região Centro-Sul do Paraná e norte de Santa Catarina. Os negacionistas climáticos utilizam este exemplo de 1959 como alegação de que não se trata de mudanças climáticas, mas, sim, de um fenômeno que sempre existiu. E principalmente como justificativa para uma suposta falta de relação entre a ação do homem e as mudanças climáticas e seus eventos naturais catastróficos consequentes.

 

Perda de áreas florestais

Porém, a tendência, como temos visto nos últimos anos, é de um aumento na quantidade e intensidade destes fenômenos climáticos extremos. E o devastamento das matas e florestas apresenta uma relação de causa e efeito inegável. Não, não é coincidência que o município de Rio Bonito do Iguaçu foi a cidade brasileira que mais desmatou a Mata Atlântica entre 1985 e 2015, de acordo com levantamento da ONG SOS Mata Atlântica. 24,9 mil hectares de floresta foram destruídos no período, o equivalente a uma área como a cidade de Fortaleza. A plataforma MatBiomas, que reúne dados de organizações não-governamentais, universidades e empresas de tecnologia, também, aponta uma grande perda de vegetação na região do município. Em 30 anos, houve uma perda de 60% da área de vegetação. Em 2024, 67,9% da área já estava desmatada para uso da agropecuária, restando apenas 24% de cobertura vegetal.

 

Topografia do Paraná

O Paraná, por contar com uma topografia plana, encontra-se mais suscetível a ocorrência de ventos fortes. A ausência de morros e montanhas é uma das causas. Cenário que é agravado pelo desmatamento. As árvores servem de barreira para os ventos, segurando a velocidade das correntes de ar. Some-se a isso, o aquecimento das águas dos oceanos, que ejetam mais vapor no ar, gerando correntes de ar quente que se encontram com massas de ar polar, favorecendo a formação de tornados, tornando a atmosfera mais turbulenta. Encontros de massas de ar seco e quente com massas de ar frio, enfim, uma confluência de fatores causais relacionados a desequilíbrios climáticos.

 

Reflorestamento

Faz-se urgente que o poder público e a iniciativa privada desenvolvam programas permanentes de reflorestamento, em todo o estado . “Com exceção do Parque Nacional do Iguaçu e da região costeira, o Paraná é um estado devastado em suas matas e florestas nativas”, disse à imprensa, durante a semana, Clóvis Borges, da ONG SPVS – Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem e Educação Ambiental.

 

Árvores e microclima

Em especial, climatologistas recomendam o reflorestamento em áreas degradadas nos vales e encostas. As áreas urbanas, também, necessitam estar protegidas por árvores, que surtem o efeito de “quebra-ventos“, protegendo as grandes populações dos efeitos de correntes de ar intensas. Barreiras de árvores no entorno das cidades reduzem a velocidade do vento. Municípios que contam com bolsões de mata encontram-se menos suscetíveis aos efeitos dos ventos em alta velocidade. Árvores e vegetação abundante, ainda, contribuem para refrescar a temperatura e umidificar e purificar o ar, melhorando o microclima das áreas urbanas.

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