Corticoides e Glaucoma: Perigos do uso inadequado

Especialistas alertam para o perigo da automedicação com corticoides e pedem maior rigor e controle na venda destes medicamentos para proteger a visão

O uso inadequado e a compra sem receita médica de medicamentos com corticoides acenderam um alerta vermelho na comunidade médica brasileira neste mês de junho. A Sociedade Brasileira de Glaucoma (SBG) adverte que o uso prolongado dessas substâncias, seja em colírios, pomadas ou comprimidos, pode desencadear ou agravar casos de glaucoma, uma doença silenciosa no nervo óptico que não tem cura e figura como uma das principais causas de cegueira irreversível no país.

A busca por alívio rápido em casos de alergias, sinusites e inflamações faz com que muitas pessoas recorram à automedicação. No entanto, o uso contínuo de corticoides sem a devida orientação médica esconde um perigo grave para a saúde ocular. Estima-se que mais de 1,7 milhão de brasileiros já convivam com o glaucoma, e a incidência da doença cresce significativamente após os 40 anos de idade, afetando entre 2,5% e 3,5% da população nesta faixa etária.

Os especialistas explicam que esses medicamentos interferem diretamente no mecanismo de drenagem natural do olho. Com o bloqueio do escoamento do líquido interno do globo ocular, ocorre o aumento da pressão intraocular. Quando essa pressão permanece elevada por períodos prolongados, ela danifica progressivamente as fibras do nervo óptico, resultando na perda da visão periférica e, em casos graves, na cegueira total.

Como o uso de corticoide afeta a pressão ocular

Muitos pacientes associam o perigo apenas aos colírios com corticoides, comumente utilizados de forma crônica por pessoas que sofrem de conjuntivite alérgica ou irritações oculares frequentes. Contudo, médicos reforçam que corticoides em pastilhas, xaropes, cremes e sprays nasais também possuem absorção sistêmica e podem descontrolar a pressão do olho.

Além dos danos severos à visão, o uso indiscriminado e prolongado dessas substâncias provoca efeitos colaterais severos em todo o organismo, tais como:

  • Elevação da glicose sanguínea e descontrole do diabetes;

  • Ganho de peso acentuado e retenção de líquidos;

  • Desenvolvimento de hipertensão arterial;

  • Enfraquecimento da estrutura óssea (osteoporose);

  • Supressão hormonal e maior vulnerabilidade a infecções.

O risco é ainda mais alarmante para quem já possui diagnóstico de glaucoma. Cerca de 90% desses pacientes manifestam alta sensibilidade aos corticoides, sofrendo picos imediatos na pressão ocular ao entrarem em contato com a substância, o que acelera a perda visual. Em crianças com histórico de alergias, o uso inadvertido de colírios sem receita pode antecipar o surgimento de catarata precoce e glaucoma infantojuvenil.

Entidades médicas pedem restrição na venda de corticoides

Diante do avanço do problema, que já se transformou em uma questão de saúde pública, a SBG uniu forças com o Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO) e a Sociedade Brasileira de Oftalmologia Pediátrica (SBOP). As entidades enviaram uma nota pública oficial direcionada à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), ao Ministério da Saúde e ao Congresso Nacional solicitando medidas rígidas de controle.

O objetivo principal do movimento é estabelecer para os corticoides o mesmo protocolo de retenção de receita médica aplicado atualmente aos antibióticos. Com a exigência de uma via retida na farmácia e o rastreamento da prescrição, o setor médico espera bloquear o autotratamento e conscientizar a população sobre a gravidade do uso crônico.

A mobilização também visa alertar profissionais de outras especialidades, como ortopedistas, reumatologistas e geriatras. Como esses médicos tratam dores crônicas e doenças autoimunes que exigem corticoterapia, o diálogo interdisplinar ajuda a garantir que os pacientes do grupo de risco passem por exames oftalmológicos periódicos para monitorar a saúde dos olhos e evitar a cegueira evitável.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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