Já faz alguns anos que o Carnaval tem perdido a graça para milhões de brasileiros. O crescimento e fortalecimento de grupos religiosos como os evangélicos, que costumam fazer incisivas referências à “propagação da libertinagem sexual” atribuída à folia, tem sido um dos motivos. Unindo-se a aspectos relacionados a crenças religiosas, onde, até, termos como “festa satânica” entram no discurso, a crescente polarização político-ideológica tem contribuído ainda mais para a aversão de muitos brasileiros à maior festa popular do planeta.
Palco de divisão
O que no passado era apenas uma festa que unia brasileiros, em geral motivada por alegria espontânea, música e tradição cultural, tem se tornado palco de divisão, polarização e disputa político-ideológica. O Carnaval tem sido sequestrado por pautas políticas, militância LGBTQ+ e discursos feministas. A essência do Carnaval, infelizmente, perdeu-se, dando palco a todo tipo de expressão e manifestação política, ideológica ou de exaltação às opções religiosas em detrimento das crenças do outro.
Polarização no auge
O auge desta polarização foi visto neste último Carnaval de 2026, ano de eleições presidenciais. A escola Acadêmicos de Niterói — com o samba-enredo “Do Alto do Mulungu surge a Esperança: Lula, Operário do Brasil” — homenageou escancaradamente o presidente Lula que, como todos sabem, disputará a reeleição. Indo além, a Acadêmicos de Niterói, na ala “Neoconservadores em Conserva”, provocou abertamente o eleitorado conservador ao ironizar o modelo da “família tradicional brasileira“. A imagem do ex-presidente Bolsonaro atrás das grades, retratado como o palhaço “Bozo”, completou o que muitos consideraram uma falta de senso de ridículo da agremiação. A reação do público conservador — em sua maioria evangélico — foi imediata nas redes sociais. Respostas com versículos bíblicos e a adesão à trend com o desenho de uma família em uma lata de conserva viralizaram.
Críticas na imprensa
É óbvio que a homenagem da escola de samba ao presidente Lula configura-se em flagrante propaganda eleitoral antecipada. Jornais como o Estadão, Folha de São Paulo e Gazeta do Povo teceram duras críticas ao samba-enredo da Acadêmicos de Niterói, que estreava na divisão de elite e terminou por ser rebaixada à segunda divisão por não ter alcançado notas suficientes em diversos quesitos. Mas o rebaixamento nada tem a ver com a homenagem a Lula e a propaganda eleitoral antecipada. No samba-enredo, a escola tirou nota 10, tendo alcançado a nota máxima somente em dois quesitos.
TSE ignora legislação
É inadmissível que, durante um ano de eleições presidenciais, uma escola de samba ouse, com tanta desfaçatez, fazer propaganda eleitoral antecipada e permaneça impune. A oposição já acionou a Justiça. A polêmica começou em dezembro, quando o Ministério da Cultura liberou R$5 milhões pela Lei Rouanet a Acadêmicos de Niterói. No final de janeiro, o Ministério da Cultura e Embratur enviou mais R$12 milhões às doze escolas do Grupo Especial, sendo R$1 milhão para cada agremiação, inclusive, a Acadêmicos de Niterói. O partido NOVO, em 3 de fevereiro, entrou com uma ação movida no TSE para bloqueio do repasse a Acadêmicos de Niterói. A sugestão não foi acatada pelo TSE, que manteve o desfile. Em nota, o PT havia dito que “não há fundamento jurídico para qualquer discussão sobre inelegibilidade relacionada ao episódio”.
Pegou muito mal
Contudo, após tanta repercussão negativa, a avaliação do Palácio do Planalto é de que a homenagem foi negativa para a imagem de Lula. E vale lembrar que a primeira-dama Janja da Silva desistiu de desfilar. Pois, o plano original era de participação da esposa do presidente Lula no desfile. O petista e a primeira-dama assistiram ao desfile na Sapucaí. Lula desceu à avenida para cumprimentar o mestre-sala e a porta-bandeira da Acadêmicos de Niterói, gesto que repetiu com outras três escolas de samba no desfile de domingo (15/02).
Propaganda com dinheiro público
O senador Flávio Bolsonaro disse que deverá acionar o TSE sobre a propaganda antecipada com dinheiro público. Mas vamos esperar o quê, vindo do TSE, que já havia permitido o desfile mesmo com tentativa de barrá-lo pelo partido NOVO? Esperarmos o quê de um Tribunal aparelhado pela militância ideológica de esquerda, aos moldes do STF? Lamentavelmente, o eleitorado tem sido desrespeitado, a democracia vilipendiada e a legislação tem sido ignorada ou subvertida a serviço de uma única ideologia, a que se encontra no poder.
Desequilíbrio na disputa
Este ano de eleições presidenciais mal começou e já começou mal… O abuso de poder dá as caras já no Carnaval. Devemos aguardar muito mais situações absurdas e violações, se uma reação dura da oposição não for consumada, gerando sanções. O único alento é a imensa repercussão negativa da propaganda eleitoral antecipada mediante, até, o eleitorado mais moderado. O PT deixou claro que não respeita a democracia, a legislação e uma disputa equilibrada, sem uso da máquina pública e de dinheiro público. E, perante o eleitorado evangélico, ao qual o presidente Lula tem tentado se reaproximar, talvez, este episódio tenha colocado a última pá de cal, enterrando, de vez, qualquer possibilidade de reconquista dos votos desta expressiva parcela de eleitores.







