No último dia 6 de agosto, o influenciador digital Felipe Bressanim Pereira, conhecido como “Felca”, sacudiu o debate público nacional ao divulgar um vídeo-denúncia de sua autoria expondo a adultização e erotização de crianças e adolescentes nas redes sociais. O vídeo já alcança mais de 36 milhões de visualizações e, desde sua publicação, o debate levantado pelo influenciador de 27 anos tem gerado pautas na imprensa, e sido muito comentado por autoridades públicas e políticas, inclusive, no Congresso Nacional.
Neutralidade política
O problema denunciado por Felca não é novo. Trata-se de um problema que vem de longa data, mas que a sociedade brasileira costuma fazer uma certa vista grossa. Algum, até o normalizam.Quando muito, a erotização de menores de idade mobilizava certos setores da sociedade e “bolhas” ideológicas. Porém, sem alcançar o nível de repercussão atingido pelo influenciador Felca. Talvez, tenha sido necessário uma personalidade pública considerada “neutra” politicamente como é o “Felca“ para conseguir furar as “bolhas” da esquerda e da direita e obter grande repercussão. O influenciador londrinense, radicado em São Paulo, não é uma pessoa pública reconhecida como sendo de “direita” ou de “esquerda”, tendo se tornado famoso nas redes sociais por falar de assuntos variados como, humor, sarcasmo, bullying e alguns temas gerais de importância nacional a exemplo de críticas a influenciadores que ganham dinheiro com as bets. Assim, aparentemente “isentão” quanto a política e ideologia, o influenciador conseguiu amplo apoio, com seu importante vídeo-denúncia de utilidade pública, tanto da direita como da esquerda. Desde a deputada Érica Hilton ao deputado Nikolas Ferreira.
Centro da polarização
Entretanto, como tudo o que acontece no país, o tema sobre a exploração da imagem das crianças na internet com teor de adultização e erotização, também, vem sendo colocado no centro da polarização. ”Felca”, com seu vídeo-viral, terminou por dividir a direita. Uma ala mais radical da direita tem lamentado a repercussão do vídeo pelo fato de ter obtido apoio do governo Lula e de parlamentares da base governista.
“PL da Censura”
Acusam o governo Lula de estar se aproveitando da grande repercussão do vídeo para encontrar mais um pretexto para agilizar a aprovação do PL 2630, projeto de regulamentação das redes sociais. Afinal, o projeto prevê questões como o combate à pedofilia nas redes sociais, entre outros crimes. Mas, também, contém itens sensíveis e controversos a respeito do uso da liberdade de expressão sobre assuntos como, democracia e eleições. O jornalista Rodrigo Constantino tem sido um dos mais radicais nas críticas ao vídeo do “Felca”, classificando o influenciador de “agente do caos”.
Ora, o governo até pode estar aproveitando-se, de forma oportunista, do sucesso e grande popularidade do vídeo do influenciador para agilizar a aprovação do “PL da censura”. Todavia, a culpa não é do influenciador. Há direitistas que, de forma paranoica, suspeitam, até, de que “Felca” teria feito um acordo com o governo e Alexandre de Moraes para dar uma “forcinha” com seu vídeo para garantir a aprovação do “PL da Censura”. E deixar de lado os projetos da anistia e de outras pautas bolsonaristas.
Paranoias e hipocrisia
Parte da direita, é tendente a aderir a ideias paranoicas, enxergando interesses ideológicos onde não há. O que termina por colocá-la numa posição contraditória e hipócrita. Pois, o combate à pedofilia e à exploração sexual de crianças e adolescentes tem sido uma das mais fortes bandeiras da direita. Não seria o momento de aplaudir a iniciativa do influenciador? Ou, talvez, a ciumeira por não se tratar de um influenciador reconhecido e assumidamente “de direita” seja o problema…
Telhado de vidro na esquerda
Por falar em hipocrisia, é preciso lembrar daquela que vem da esquerda, também. A esquerda aplaude o vídeo do “Felca“ mas parece que esquece que já promoveu exposições e performances “artísticas” para menores de idade com conteúdos erotizantes e patrocinadas com dinheiro público? Quem lembra da polêmica em torno da exposição “Queer Museu” direcionada a alunos de escolas promovendo conteúdo pornográfico LGBT QIA+”? E o que dizer da cultura do funk defendida pela esquerda como “cultura popular“? E ainda tacham de “preconceito contra a periferia” quem critica as letras chulas e de conteúdo pornográfico… Pois, é… Este mesmo funk tem embalado muitas dancinhas sensuais nas redes sociais onde crianças e adolescentes são protagonistas…
Mania nacional
O brasileiro precisa parar com essa mania de inserir todo e qualquer problema nacional dentro da polarização. É evidente que a preocupação com o “PL da censura” é válida. E que políticos oportunistas deverão se aproveitar para empurrar a regulação das redes sociais a pretexto de combater a pedofilia e defender os direitos das crianças e adolescentes.
Projeto no Congresso Nacional
Mas é possível separar os temas a fim de que a proteção da infância não entre no mesmo “balaio” da censura à liberdade de expressão nas redes sociais. Há mais de sessenta projetos no Congresso Nacional referentes ao tema abordado por Felca. O presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), disse que deve levar um projeto de proteção às crianças e adolescentes nas redes sociais para votação na semana que vem. Motta vai discutir o texto com líderes em reunião para bater o martelo e votar a pauta. A proposta é de autoria do senador Alessandro Vieira (MDB-SE) e já foi aprovada no Senado. O relator da matéria é o deputado Jadyel Alencar (Republicanos-PI). Motta disse que criaria uma comissão especial para debater um novo texto contra a exploração da imagem infantil com base em propostas já protocoladas por deputados. Porém, a elaboração de um novo texto poderia levar meses. Aliás, Felca foi convidado a participar do debate no Congresso Nacional.
Punições e retirada de conteúdo
Motta vai defender que o projeto de Alessandro Vieira tenha urgência e méritos votados já na semana que vem. A proposta prevê que os fornecedores de conteúdo, plataformas e redes sociais, devem retirar postagens que violem direitos das crianças e adolescentes assim que forem comunicadas do caráter ofensivo da publicação, independentemente de ordem judicial. Em caso de descumprimento da retirada do conteúdo, as plataformas estarão sujeitas às seguintes punições, administradas por órgão competente do Poder Executivo: advertência, multa de 10% do faturamento da empresa, suspensão das atividades e proibição da atividade. O projeto estabelece que não estão sujeitos a retirada conteúdos jornalísticos e submetidos a controle editorial.







