Os alemães têm a fama, justificada, de serem extremamente sinceros, ao ponto de soarem grosseiros e arrogantes, até. Todo brasileiro que vai morar na Alemanha choca-se com a decantada sinceridade do povo alemão, em geral. Algo que, para a cultura brasileira, é impensável, por estarmos sempre preocupados em não ofender ou magoar, sendo adeptos de “mentirinhas” do bem, a exemplo de falsos elogios só para agradar e gerar simpatia.
O chanceler alemão Friedrich Merz deu o maior exemplo desta “sinceridade extrema“ do alemão típico, nesta semana, ao chegar na Alemanha depois de visitar Belém, no Pará, durante o evento COP30. Disse, em evento destinado a investidores do varejo, que os jornalistas ficaram contentes em voltar à Alemanha e que nenhum deles gostaria de ficar “naquele lugar”.
“Xenofobia” e “nazismo”
O comentário do líder de centro-direita alemão repercutiu muito mal, evidentemente, aqui no Brasil. A esquerda, em especial, sempre ufanista, ficou indignada, tachando o chanceler alemão de “preconceituoso”, ”arrogante“ e até de “xenófobo“ e “nazista“.
Infelizmente, a verdade dói. O chanceler foi extremamente sincero e certamente referiu-se ao que viu em Belém e no evento COP30. Muito provavelmente, não referiu-se ao Brasil como um todo, país de dimensões continentais que, talvez, ele, sequer, conheça, realmente, para além dos cartões-postais e dos estereótipos pejorativos tão disseminados na Europa e Estados Unidos. O que doeu, de fato, foi saber que o chanceler alemão tem razão ao referir-se negativamente a cidade e ao evento.
Maior favelização
Quem não ficaria feliz em voltar ao mundo civilizado após uma visita a Belém, umas das capitais mais pobres e subdesenvolvidas do país? Belém é a capital de maior favelização do país. Cerca de 60% da população vive em favelas. Somente 20% da população tem acesso a rede de esgoto. A falta de infraestrutura da capital do Pará é gritante. Muita miséria, sujeira, degradação e criminalidade acompanham este triste cenário. Para piorar, o evento foi tão mal organizado e precário que a própria ONU cobrou melhorias na segurança, na refrigeração das salas e nos banheiros sem água.
Falta de rede hoteleira
A COP30 vai ficar para a História como a maior pataquada já organizada no Brasil. Belém não conta com, sequer, rede hoteleira para abrigar um evento deste porte, de nível internacional. O que fizeram? Tiveram de disponibilizar dois transatlânticos bem poluentes, por sinal, para hospedar as comitivas dos países. Por falar em países, muitos líderes não deram a mínima para o evento. A China, por exemplo, enviou um representante qualquer, o “sub do sub“ do presidente Xin Jin Ping. O restante dos BRICS não compareceu.
Vexame internacional
O presidente Lula gastou quase R$1 bilhão para expor o Brasil a este vexame internacional. E ainda tenta levantar a bola do país e do evento em cima da deselegância do chanceler alemão. A esquerda toda, aliás, espera um novo levante “patriota” aos moldes dos ataques de Trump ao Brasil, com o tarifaço. Contudo, agora, a história é diferente. Trump realmente atacou o Brasil com o tarifaço, sem escrúpulos e de maneira injusta, visando, apenas, beneficiar os Estados Unidos. Já, o que Merz disse, não foi um ataque. O chanceler foi, tão, somente, crítico em relação às condições precárias do evento e da cidade. Enfim, o pouco que ele viu foi o suficiente para deixá-lo muito horrorizado. Tanto que comparou os países dizendo aos empresários alemães que “nosso país é lindo”. Evidentemente, estava puxando a brasa para sua sardinha ao tentar incentivar o empresariado a investir na Alemanha.
Frases de efeito
O presidente Lula defendeu o Brasil respondendo que em Belém há melhor qualidade de vida que em Berlim. E que Merz deveria ter conhecido um boteco em Belém. Não adianta o presidente Lula tentar tapar o sol com a peneira a partir de frases de efeito e piadinhas sem graça. Palavras não maquiam a realidade de um país que conta com menos 50% de rede de esgoto e mais de 100 milhões de pessoas vivendo sem coleta adequada. O Brasil investe menos de 2% do PIB em infraestrutura enquanto países desenvolvidos superam os 4% do PIB. A Alemanha é reconhecida pela excelente infraestrutura. Aliás, a busca pela excelência em tudo, principalmente, em tecnologia e infraestrutura, é a marca da cultura alemã. Deve ter sido um choque cultural terrível para o chanceler dar de cara com tanta precariedade e desorganização…
Vitrine estilhaçada
Foi um erro brutal a escolha de Belém para sediar um evento deste porte, que serve de vitrine para o Brasil. Por que não escolheram Curitiba, por exemplo, a famosa “capital ecológica”? Nem o sete a um na Copa de 2014 fez a Alemanha humilhar tanto o Brasil como na COP30. É lamentável não ter havido, no mínimo, noção dos organizadores deste evento em escolher uma cidade com melhor infraestrutura. Florianópolis, Curitiba, Belo Horizonte, Goiânia, por exemplo, poderiam ter sediado este evento com dignidade e competência. Tendo poupado o Brasil de tamanho vexame internacional. Não tanto pelo comentário sincero, mas deselegante, do chanceler. Mas por que o líder alemão falou o que tantos outros representantes de países devem ter pensado. A escolha de uma cidade na Amazônia certamente foi estratégica no sentido de tentar “comover” as lideranças internacionais para os problemas relacionados ao meio ambiente. Entretanto, terminou por ser emblemática do descaso com o meio ambiente naquela região. Esgoto a céu aberto, sujeira, protesto de indígenas, falta de água, chuvarada desabando o teto do espaço do evento, navios poluidores atracados no porto, o presidente Lula hospedado num iate de luxo em contraste com tanta miséria e, também, poluindo o meio ambiente… Em resumo, seria cômico se não fosse trágico.
Elites e oligarquias políticas
O evento tem sido um verdadeiro caos a refletir o caos deixado por sucessivas gestões daquela região governada por elites políticas que tratam a população feito gado destinado ao abate. O povo de Belém deve ficar bravo e indignado é com seus governantes. Pois, quem os humilha diariamente, há décadas, é a elite política que governa o Pará. Que só lembra do povo em época de eleições.
Migração para o Sul
Tanto que nem o paraense tem ficado feliz em morar lá. Nos últimos anos, muitos deles têm preferido morar no Sul do país. Santa Catarina e a Grande Curitiba têm sido os destinos preferidos de muitos paraenses cansados das condições precárias, da criminalidade, da falta de empregos, no Pará.
O comentário do chanceler pode ter sido grosseiro, deselegante, um tanto descabido a uma pessoa pública que deveria atentar para a diplomacia entre países, mas, apenas, verbalizou uma verdade inconveniente que nenhuma maquiagem, marketing, slogan ou frases de efeito conseguem mais disfarçar.







