Jornalista responsável dos jornais do Grupo Paraná Comunicação (A Gazeta Cidade de Pinhais, A Gazeta Região Metropolitana, Agenda Local e Jardim das Américas Notícias)

Feminicídios crescem em meio a popularização do discurso “Red Pill”

Como discursos de ódio nas redes sociais alimentam a violência real

O Dia Internacional da Mulher, celebrado em 8 de março, sempre foi uma data de reflexão e de fortalecimento da luta pelos direitos das mulheres e, também, de comemoração de muitas conquistas femininas. Contudo, nos últimos anos, tem se tornado difícil comemorar, de fato, diante de dados tão alarmantes sobre a violência contra as mulheres. Os negacionistas, talvez, diriam que se trata, tão somente, de maior atenção da imprensa e do poder público ao tema, bem como de uma maior conscientização da importância de registros oficiais, causando a suposta impressão de crescimento no número de casos.

Lei do Feminicídio

Mas os números crescentes, apenas, evidenciam a realidade dos fatos. Vejamos os casos de feminicídio no Brasil, crime que passou a ser tipificado em 2015, quando foi criada a Lei do Feminicídio. Desde então, em dez anos, foram registrados, ao menos, 13.703 assassinatos de mulheres em razão delas serem mulheres, unicamente, de acordo com relatório divulgado em 4 de março passado, pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Entre 2021 e 2025, houve um crescimento de 14,5% nos registros. Em 2025, o país quebrou o recorde atingido em 2024, chegando a 1.568 vítimas, um crescimento de 4,7% em relação a 2024.

Casais e ex-casais

Os dados são muito preocupantes, levando a análises e considerações sobre as razões para tanta violência contra a mulher. E especialmente sobre as dificuldades no combate a crimes desta natureza em uma sociedade que já alcançou tantos avanços em relação aos direitos da mulher, a igualdade de oportunidades e de condições, a exemplo do mercado de trabalho. O que estaria motivando tantos homens a matar mulheres? Os números do Fórum apontam que 59,4% desses crimes foram cometidos pelos companheiros. E 21,3% por ex-companheiros. Sendo que 97,3% desses crimes foram cometidos por homens, ou seja, em sua imensa maioria envolvendo casais e ex-casais heteroafetivos.

Discurso “Red Pill”

Entre as possíveis causas deste aumento no número de casos, está o fortalecimento do discurso de ódio contra mulheres, que cresceu muito nestes últimos anos. Durante a pandemia, as redes sociais foram inundadas de perfis, fóruns e comunidades propagadores do chamado discurso “Red Pill”, que prega a defesa de ideias masculinistas, antifeministas e misóginas (ódio e aversão a mulheres), muitas vezes, disfarçadas de um trabalho de coach para fortalecimento da autoestima masculina. O famoso “calvo do Campari”, o influenciador Tiago Schutz, é um dos ícones deste movimento que já se torna uma verdadeira ideologia. Seria coincidência a verificação do crescimento desta ideologia misógina em paralelo ao crescimento no número de feminicídios, estupros e da violência contra a mulher, em geral? É muito provável que não se trata de coincidência, mas de íntima correlação. Indo mais além da correlação, trata-se de uma relação de causa e efeito. Pois, o movimento “Red Pill “popularizou-se ao ponto de levar muitos homens não adeptos e não-identificados totalmente com esta ideologia a reproduzirem parcialmente certos “argumentos” do discurso, sem constrangimentos. “Casamento no Brasil, com essa legislação favorável somente às mulheres, foi feito para desgraçar o homem”; “Mulheres só querem privilégios, não querem apenas direitos iguais”; “Ter filhos num casamento e se divorciar é a ruína de um homem, o sujeito sairá depenado financeiramente com pagamento de pensão e divisão de bens”; “Mulher solteira, depois dos trinta, já está velha, rodada e encalhada, só um otário para casar com ela”… Essas considerações costumam sair da boca de alguns ditos homens “comuns”, não-adeptos “de carteirinha” das comunidades “Red Pill”. O que se dirá dos adeptos “de carteirinha“…

Extremismo político-ideológico

Talvez, não seja coincidência, também, que, em paralelo a popularização do discurso ”Red Pill“, tenhamos presenciado o fenômeno da polarização político-ideológica. Uma polarização, por sinal, que tem ganhado contornos extremistas desde a pandemia, a nível global. A ascensão da extrema-direita teve como um de seus pilares um discurso conservador, também, nos costumes, em que o antifeminismo foi um dos grandes destaques. Críticas ao feminismo como “movimento destruidor das famílias” e “contra a vida desde a concepção“ foram mescladas a um discurso de retorno aos “tempos antigos”, em que o conceito de família tradicional passou a ser associado, apenas, a mulheres que optam por serem mães, esposas e donas de casa, abandonando a vida profissional após o casamento. O enaltecimento do homem “provedor“ ganhou força, ao lado da defesa da mulher ”feminina“ e “submissa“ ao marido. Pipocaram nas redes sociais coachs e influenciadores ensinando as mulheres a serem “mais femininas” para atraírem e conseguirem casar com um homem “provedor” e “protetor”.

Polarização

Enfim, o Brasil e boa parte do mundo ocidental têm atravessado, nos últimos anos, muitas mudanças a nível cultural e ideológico. Possivelmente, o isolamento presencial durante a pandemia tenha contribuído para o sucesso de tantos perfis e comunidades que defendem o retrocesso nos costumes, favorecendo a popularização de discursos extremistas em torno da misoginia, também. Durante os anos da pandemia, as pessoas, em geral, passaram a ficar mais tempo nas redes sociais, encontrando-se mais abertas a todo tipo de conteúdo que refletisse suas crenças e opiniões político-ideológicas. Num mundo em que o extremismo político e ideológico só se fortaleceu com as duras adversidades e desafios da pandemia, não seria diferente com o incremento do extremismo em relação a outros temas, a exemplo do discurso “Red Pill”. Em especial, quando este encontra um “link” de identificação com a extrema-direita e seu conservadorismo nos costumes.

Pauta nas campanhas

Acredito que seria o momento de começar um sério debate sobre a possibilidade de criminalização do discurso “Red Pill” nas redes sociais. As eleições estão chegando e, na certa, o combate à violência contra a mulher estará em alta na pauta.

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