Jornalista responsável dos jornais do Grupo Paraná Comunicação (A Gazeta Cidade de Pinhais, A Gazeta Região Metropolitana, Agenda Local e Jardim das Américas Notícias)

Bolsa do governo federal para incentivo a ingresso na carreira de professor não garante permanência

Não é, apenas, criando-se bolsas que se resolve ou mitiga-se um problema profundo e estrutural no sistema educacional brasileiro

O Governo Federal criou o Bolsa Pé-de-Meia Licenciaturas para incentivar jovens a ingressar na carreira de professor. O governo paga uma bolsa mensal de R$1 mil a estudantes de qualquer curso de licenciatura admitidos pelo Enem. O programa foi criado com o intuito de enfrentar o crescente desinteresse dos jovens em seguir a carreira de professor. Pois, infelizmente, o futuro da docência no Brasil está ameaçado. Para se ter uma ideia, de acordo com estudo do Sindicato das Entidades Mantenedoras de Estabelecimentos de Ensino Superior do Estado de São Paulo (Semesp), o Brasil poderá ter uma carência de 235 mil professores até 2040.

 

Melhores condições de trabalho

Contudo, o programa do governo, por si, só, não traz perspectivas de garantir a permanência de futuros professores na profissão. Não é, apenas, criando-se bolsas que se resolve ou mitiga-se um problema profundo e estrutural no sistema educacional brasileiro. Acima de tudo, é preciso garantir bons salários e planos de carreira à categoria. Além disso, não é somente dinheiro o que motiva um professor ou qualquer profissional a prosseguir na profissão. Melhorias nas condições de trabalho é fundamental. Nada paga a saúde física e mental. Isso não tem preço. Melhor infraestrutura nas escolas, um ambiente mais acolhedor e empático ao professor, onde a motivação e o respeito façam parte. Pois, quando se pensa nos problemas e desafios na educação do país não se trata, unicamente, de carências materiais como boa infraestrutura, escolas reformadas e bem equipadas. Mas se trata, também, de superlotação nas sala de aula, de inclusão de estudantes neuroatípicos, como os autistas, e de indisciplina e desinteresse dos alunos.

 

Violência nas escolas

Este último problema tem representado um dos maiores desafios. Atualmente, crianças e jovens têm apresentado comportamentos de indisciplina, desinteresse nos estudos e desrespeito ao professor que podem chegar a níveis extremos, a exemplo de alguns casos de violência retratados na imprensa. Em determinadas escolas da periferia de grandes cidades, o cenário pode ser bastante grave. Lidar com os frequentes casos de “bullying” entre alunos é mais outra questão complicada que requer muita habilidade e sensibilidade dos educadores.

 

Pais permissivos e omissos

Estudantes deste multifacetado mundo contemporâneo têm levado a sala de aula as consequências de uma educação recebida dos pais, e das vivências do ambiente social, que é muito diferente do passado. Com pais mais permissivos, omissos ou ausentes em cumprirem o papel de educadores de seus filhos, resta ao professor “se virar nos trinta“ para dar conta de uma sala de aula lotada de alunos “cheios de querer” e sem noção de deveres, responsabilidade, respeito e disciplina.

 

TDAH e uso de telas

Para agravar o cenário, alunos têm apresentado maiores taxas de TDAH – Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade, uma neuroatipia que dificulta, em muito, manter o foco e atenção em aulas que demandam um esforço e concentração mais prolongados, em que o aluno deve permanecer em uma postura mais passiva e receptiva, entre outros sintomas. E quando há abuso no uso de telas em casa, o transtorno pode se agravar. Inclusive, mesmo alunos que não apresentam TDAH costumam encontrar dificuldades em manter o foco e atenção em uma sala de aula devido a sobrecarga mental e desequilíbrios na produção do neurotransmissor ‘dopamina’ causados pelo uso excessivo de telas. Enfim, as mudanças sociais, culturais e tecnológicas do mundo contemporâneo trazem novos desafios à docência. Talvez, repensar a estrutura tradicional de ensino em que o aluno permanece exclusivamente numa postura passiva e receptiva, em silêncio, seja uma possibilidade…

 

Ausência de políticas públicas

Não será criando mais uma bolsa, mais um programa social de transferência de renda, que vamos solucionar um problema tão desafiador. Trata-se de uma “solução“ simplista e imediatista que poderia dar lugar a políticas públicas consistentes e permanentes de melhoria na qualidade da educação brasileira. Investimentos maciços e estruturantes nas escolas, no sistema de ensino, na infraestrutura, na qualificação e valorização dos educadores é o que tem faltado, historicamente, no país. É uma união que deveria ser de todos, em todas as esferas de poder, a nível federal, estadual e municipal. A responsabilidade é dividida entre estados, municípios e a União. Somente quando a nação, como um todo, se der conta de que, sem educação de qualidade, não chegaremos a lugar algum em termos de desenvolvimento humano, cultural e social, é que poderemos vislumbrar uma saída para o Brasil efetivamente “deslanchar”. Somos ainda uma população de maioria semianalfabeta, que apresenta dificuldades em compreensão de texto. Alunos terminam o Ensino Médio sem conseguirem ler e escrever de forma compreensível. Há dificuldades na realização das quatro operações matemáticas, também, conforme diversos índices apontam. Só sairemos deste cenário desolador com uma verdadeira revolução na qualidade do ensino. E tudo isso passa por investimentos nos educadores e escolas, mas, também, no sistema de ensino.

 

Populismo

O país não só precisa de mais professores, mas de professores mais valorizados e qualificados. E são as políticas públicas que determinam essa melhoria em qualidade. Os recursos pagos aos bolsistas do governo estariam sendo melhor aproveitados com investimentos efetivos na melhoria da qualidade de ensino. Infelizmente, mais um programa populista financiado pelo bolso do contribuinte sem trazer resultados consistentes e permanentes.

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