Reconstrução mamária pelo SUS alcança apenas 17% das pacientes

Cirurgia de reconstrução mamária é garantida por lei, mas enfrenta gargalos de infraestrutura e distribuição regional na rede pública de saúde
Cirurgia de reconstrução mamária é garantida por lei, mas enfrenta gargalos de infraestrutura e distribuição regional na rede pública de saúde - Magnific
Acesso ao procedimento de cirurgia plástica reconstrutiva ainda é limitado no país; especialistas reforçam que a intervenção pode ocorrer anos após o tratamento

A reconstrução mamária é um direito garantido às mulheres submetidas à mastectomia por câncer de mama, mas o acesso ao procedimento ainda está distante de ser universal no Sistema Único de Saúde. Dados do Departamento de Informática do Sistema Único de Saúde analisados em levantamento publicado em 2026 mostram que, entre 2014 e 2024, apenas 17% das pacientes atendidas na rede pública fizeram a cirurgia. A Sociedade Brasileira de Mastologia estima que cerca de 80% das mulheres operadas pelo sistema público ficam sem o procedimento.

O cenário ganha relevância neste Outubro Rosa porque a rede pública passou por uma atualização recente. A Portaria GM/MS 12.254 incluiu na tabela do sistema um procedimento de reconstrução mamária unilateral, com ou sem prótese, e estabeleceu um recurso anual estimado em R$ 37,1 milhões para cirurgias plásticas reconstrutivas. A norma prevê impacto financeiro de R$ 21,6 milhões para 2026, considerando as competências de junho a dezembro.

Segundo Gláucia Cordeiro, mastologista e especialista em Oncoplastia, a discussão precisa avançar para a vida da paciente após o tratamento. “O tratamento do câncer não termina quando o tumor é retirado. Para a grande maioria das mulheres que vai sobreviver à doença, também precisamos pensar em como reconstruir o corpo, recuperar a autoestima e permitir que ela siga sua vida depois do câncer.”

RECONSTRUÇÃO TARDIA

A intervenção é realizada preferencialmente no mesmo momento da mastectomia quando existem condições clínicas e técnicas. Entretanto, tratamentos complementares como radioterapia, condições dos tecidos e estrutura hospitalar podem adiar o procedimento. Isso não significa que a paciente perdeu a possibilidade de reconstruir a mama. A legislação determina que, quando não houver condições imediatas, a paciente deve ser acompanhada para realizar a cirurgia assim que alcançar o quadro clínico adequado.

“O fato de a reconstrução não ter acontecido no momento da mastectomia não significa que essa possibilidade tenha sido perdida. A paciente pode ser avaliada posteriormente, levando em conta o tratamento que realizou, as condições dos tecidos e seu estado clínico”, explica Dra. Gláucia.

Dependendo do caso, podem ser necessárias etapas complementares para melhorar contorno, simetria e reconstrução do complexo aréolo-mamilar.

DESIGUALDADE DE ACESSO

Estudo brasileiro apresentado no congresso da Sociedade Americana de Oncologia Clínica em 2026 analisou 267.781 reconstruções mamárias realizadas entre 2015 e 2022. Do total, 58,8% ocorreram na saúde suplementar. A Sociedade Brasileira de Mastologia aponta que aproximadamente 75% das pacientes da rede privada conseguem realizar a intervenção, enquanto no setor público o índice é significativamente menor devido ao financiamento insuficiente, falta de próteses e limitação operacional dos hospitais.

A atualização da tabela do SUS altera procedimentos e valores relacionados à cirurgia reparadora. Para Gláucia Cordeiro, ampliar o financiamento é essencial, mas o acesso depende de estrutura para transformar o recurso em atendimento. “A reconstrução mamária depende de planejamento, equipe especializada, estrutura hospitalar e condições adequadas para cada paciente. O avanço não está apenas em garantir que o procedimento exista na tabela, mas em fazer com que ele esteja efetivamente disponível para quem precisa.”

O Ministério da Saúde mantém estratégia para ampliar o acesso ao procedimento na rede pública por meio da habilitação de hospitais de alta complexidade em oncologia. Com o aumento da sobrevida em tumores iniciais, a reconstrução passa a integrar uma etapa ampla de reabilitação. “A reconstrução mamária não deve ser encarada apenas como uma questão estética. Ela pode contribuir para a qualidade de vida e para a retomada da vida cotidiana”, afirma a médica.

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